El marxismo y el pensamiento de Martín-Baró como crítica de la(s) perspectiva(s) hegemónica(s) dentro de la Psicología
| Páginas | 1-18 |
| Fecha | 01 Julio 2025 |
| Fecha de publicación | 01 Julio 2025 |
| Autor | Marcelo Vinicius Costa Amorim,Maria Aparecida da Costa Chiovato |
| Materia | Ciencias sociales |
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Rev. nuestrAmérica, e-ISSN 0719-3092
2025, n.º 26, publicação contínua, e16934122
Ediciones nuestrAmérica desde Abajo. Concepción. Chile.
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Recebido: 17 de dezembro de 2024 | Aceito: 13 de julho de 2025 | Publicado: 23 de agosto de 2025
O marxismo e o pensamento de Martín-Baró
como crítica da(s) perspectiva(s)
hegemônica(s) dentro da Psicologia
El marxismo y el pensamiento de Martín-Baró como crítica de la(s) perspectiva(s) hegemónica(s)
dentro de la Psicología
Marxism and the Thought of Martín-Baró as a Critique of the Hegemonic Perspective(s) within
Psychology
Marcelo Vinicius Costa Amorim
Maria Aparecida da Costa Chiovato
Licenciada em Geografia. Graduada em Psicologia
Universidade Estadual de Goiás, Caldas Novas, Brasil.
cidachiovato202@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/7662135385251440
https://orcid.org/0009-0008-9927-2896
Resumo: Este artigo explora possibilidades de influência do marxis mo sobre a psicologia social tendo como base a visão de Martín-Baró. O
estudo traz considerações de Wilhelm Reich, reflexões de Carl Ratner e de Roque Laraia. O método utilizado é discussão teórica, abordagem
qualitativa amparada na c oleta de dados através de leitura de livros, artigos. As reflexões são construídas na dialética co m determinada
Psicologia voltada para o homem concreto e contextualizado. O marxismo fornece análise sobr e o próprio fazer cientifico, que n o caso da
Psicologia deve se compor pela própria libertação via perspectiva crítica. Considera-se as raízes da Psicologia em sua perceptividade
conservadora e individualista. Trabalha-se com hipóteses: a questão cultural e social dentro da realidade do capitalismo merece destaque
para a Psicologia devido influencia sobre grupos e indivíduo; a Psicologia que não valoriza o aspecto cultural e histórico do homem
contextualizado tende a propor interpretações abstratas. Os resultados apontaram que as contribuições teóricas de Martín-Baró se devem
a herança marxista, assim consegue elaborar a Psic ologia Social libertadora. Essa Psicologia Social tem suas potencialid ades na
capacidade de analisar processos históricos e os jogos ideológicos da contemporaneidade que tendem a capturar tanto esfera científica
quanto as consciências no senso comum.
Palavras-chave: marxismo, psicologia, Martín-Baró, crítica, soc ial.
ISSN 0719-3092
Doutor em Estudos da Linguagem
Docente do curso de Psicologia da Integra – Faculdades Integradas da América do Sul. Docente do Instituto de Biotecnologia
da Universidade Federal de Catalão, Catalão, Brasil
morimpsi@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/2398403818939382
https://orcid.org/0000-0001-8916-7779
—Rev. nuestrAmérica, 2025, n. 26, publicação contínua; Marcelo Vinicius Costa Amorim; Maria Aparecida da Costa Chiovato—
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Resumen: Este artículo explora las posibilidades de influ encia del marxismo en la psicologí a social a partir de la visión de Martín -Baró. El
estudio incorpora consideraciones de Wilhelm Reich, reflexiones de Carl Ratner y de Roque Laraia. El método utilizado es la discusión teórica,
una aproximación cualitativa sustentada en la recopilación de datos a través de la lectura de libros y artículos. Las reflexiones se construyen
desde una dialéctica con una Psicología orientada hacia e l hombre concreto y contextualizado. El marxismo provee un marco de análisis
del quehacer científico mismo, que en el caso de la Psicología debe configurarse a partir de una perspectiva crítica orientada a la liberación.
Se reconocen las raíces de la Psicología en su impronta conservadora e individualista. El trabajo plantea hipótesis como: la cuestión cultural
y social en la realidad del capitalismo merece un lugar centra l en la Psicología debido a su influencia en los grupos y en los individuos ; una
Psicología que no valore el aspecto cultural e histórico del ser humano situado tiende a elaborar interpretaciones abstractas. Los resultados
mostraron que las contribuciones teóricas de Mart ín-Baró derivan de la herencia marxista, lo que le permite el aborar una Psicología Social
de carácter liberador. Esta Psicología Social encuentra su potencial en la capacidad de analizar procesos históricos y los juegos ideológicos
de la contemporaneidad que buscan capturar tanto el ámbito científi co como las conciencias en el sentido común.
Palabras clave: marxismo, psicología, Martín-Baró, crítica, social.
Abstract: This article explores th e possible influence of Marxism on social psychology based on the perspective of Martín-Baró. The study
incorporates considerations from Wilhelm Reich, as well as reflections by Carl Ratner and Ro que Laraia. The method employed is theoretical
discussion, a qualitative approach supported by data collection through the reading of books and articles. The reflections are built t hrough
a dialectical engagement with a Psychology focused on the concrete and contextualized human being. Marxism provides an analytical
framework for scientif ic practice itself, which, in the case of Psychology, must be shaped by a critical perspective aimed at liberation. The
conservative and individualistic roots of Psychology are acknowledged. The study develops hypotheses such as: the cultural and social
dimensions within capitalist reality deserve emphasis in Psychology due to their influence on groups and individuals; a Psyc hology that fails
to value the cultural and historical aspects of the contextualized human being tends to produce abstract interpretations. The results indicate
that Martín-Baró’s theoretical contributions stem from the Marxist legacy, which enabled him to develop a liberating Social Psychology. This
Social Psychology finds its strength in the capacity to analyze historical processes and the ideological dynamics of contemporaneity that
tend to capture both the scientific sphere and common sense consciousnes s.
Keywords: Marxism, Psychology, Martín-Baró, Critique, Social.
1 Introdução
O presente artigo busca analisar os compassos e cadências entre o marxismo e a Psicologia
contemporânea. Privilegiamos a psicologia em sua articulação com a visão dialética. Buscamos
compreender como o marxismo pode auxiliar na (re)construção de uma Psicologia que escape da
perspectiva hegemônica fomentada no seio do sistema capitalista.
Discutimos as contribuições de Karl Marx através de diferentes diálogos possíveis, percorremos
alguns apontamentos de Wilhelm Reich e certas reflexões de Carl Ratner, este último, a partir de
suas releituras da Psicologia proposta por Lev Vygotsky. Compreendemos que todos esses autores
acima listados têm sua produção teórica influenciada pelo marxismo. Contudo, o teórico que
subsidia melhor nossas reflexões é Martín-Baró e suas considerações sobre a urgência de “libertar”
a Psicologia.
Ignácio Martín-Baró foi um pensador-pesquisador importante para a Psicologia Social, cuja
produção buscou fortalecer o papel efetivo dos(as) psicólogos(as) no combate à desigualdade
social. Grande parte de seus textos se organizam em torno da crítica sobre as Psicologias1 que não
se posicionam contra a injustiça no mundo. Martín-Baró valoriza o engajamento político e o debate
incessante para construção de novo horizonte ético visando a libertação popular. De origem
espanhola, nasceu em 1949, e foi assassinado em El Salvador em 1989.
1 Por vezes abordaremos o termo Psicologias para estimular o diálogo de outras especialidades da Psicologia com a Psicologia de Martín-Baró. Um exemplo
disso é o trabalho de Moreira e Guzzo (2016) que traz concepções de Martín -Baró para se pensar a atuação do profissional em Psicologia Escolar.
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A trajetória de vida de Martín-Baró foi marcada pela militância, padre jesuíta, estudou na
Universidade de Chicago e passou a lutar de maneira fervorosa no que acreditava ser a real
Psicologia Social libertadora. Efetuou estudos sobre a violência e suas consequências para a saúde
mental. Foi professor, se interessava por filosofia e teologia. Construiu um legado de reflexões cuja
crítica incide sobre os movimentos ideológicos que sustentam a exploração e a perversidade
contemporânea. Seu interesse era a liberdade dos “condenados da terra”, termo referente a todos
os indivíduos vítimas da opressão e espoliação perpetrada pelo sistema capitalista. Seu
assassinato protagonizado pela tropa de elite do exército de El Salvador visava não apenas a morte
de um homem, mas destruir todo o seu ideal de luta. É preciso destacar que o contexto2 de atuação
e pesquisa de Martín-Baró inclui os complexos conflitos sociais e políticos. A Psicologia Social Latino-
Americana é tributária da produção intelectual de Martín-Baró, pincipalmente em relação as
investigações sobre consciência e ideologia, bem como o debate sobre a relação entre sujeito e
sociedade.
Assim, nosso estudo se justifica frente as demandas contemporâneas, onde forças cada vez mais
autoritárias têm vociferado contra a ciência. Há que se proteger a Psicologia de se tornar uma mera
ferramenta da injustiça estrutural, reprodutora do status quo.
Este estudo trata de uma leitura e análise das contribuições para a Psicologia contemporânea
dispostas no livro Crítica e libertação na Psicologia: estudos psicossociais (Martín-Baró 2017), obra
que reúne os principais textos oriundos da produção intelectual de Martín-Baró.
Definimos nosso objetivo geral em: recuperar as principais contribuições teóricas de Martín-Baró e
tomar suas reflexões para compreendermos melhor nossa realidade. Nossos objetivos específicos
visam: a) encontrar contrapontos do funcionamento da psicologia elitizada (a serviço de classes
dominantes); b) identificar a influência do marxismo na formulação de uma Psicologia crítica; c)
destacar conceitos fundamentais de Martín-Baró na constituição de determinada Psicologia Social.
Para compreender a formação sócio-histórica da Psicologia contemporânea, é essencial
reconhecer as influências sociais e ideológicas moldadas pela perspectiva burguesa. O campo da
pesquisa em Psicologia deve manter um compromisso sólido com as questões sociais.
Historicamente, a ciência e a prática da Psicologia têm se caracterizado por uma ênfase excessiva
no indivíduo, frequentemente negligenciando aspectos culturais e sociais mais amplos. Assim,
produz-se individualismos.
Temos notado a necessidade de organizarmos estudos cujos objetivos visam trilhar caminhos para
libertar a Psicologia contemporânea. Essa demanda vem sendo fortemente apontada por Martín-
Baró.
Ao longo da história, a Psicologia, marcada por suas inconstâncias, permaneceu sob o domínio das
classes dominantes. Reich (1988), influenciado pelas discussões marxistas, sugere refletir sobre
como os sistemas políticos e ideológicos promovem a naturalização de aspectos da vida que, na
verdade, são resultados de processos sociais e históricos.
2 O trabalho de Waeny e Macêdo (2019) é especia lmente voltado para análise do contexto ao qual Martín -Baró formulou suas contribuições teóricas. Caso
o leitor que se interesse aos acontecimentos de El Salvador ao qual Mart ín-Baró esteve engajado vale a pena examinar a referida pesquisa.
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Com nossos resultados esperamos impulsionar o debate sobre o lugar da Psicologia na atualidade
e propor vias para o fazer teórico mantenedor da ciência a serviço do povo.
Pensar com a perspectiva “martínbaroniana” é efetuar uma reflexão que considera os processos
históricos, os determinantes sociais e os aspectos ideológicos tão importantes para compreender
a atividade e subjetividade humana. Em outras palavras, o nosso estudo recupera de Martín-Baró
as contribuições teóricas válidas para compreendermos onde a Psicologia tem sido insuficiente e
quais os horizontes ela deve perseguir caso queira atender o parâmetro ético-político.
Compreendemos que algumas das potencialidades do pensamento de Martín-Baró se deve a sua
herança marxista. Portanto, com a releitura da filosofia de Karl Marx, acompanhamos a crítica dos
modos hegemônicos de compreender, conceber, produzir e viver no mundo, isto é, a perspectiva
capitalista. Propomos a recusa da visão centrada no indivíduo, e seu funcionamento enquanto
manobra de massa (Reich 1988). As reflexões com base no marxismo podem nos ajudar
compreender como é possível atuarmos e modificarmos a realidade. Portanto, a libertação da
Psicologia perpassa, necessariamente, pela construção de estratégias para combater os
fatalismos impostos pela ideologia burguesa.
Buscamos assim a compreensão das possibilidades, das condições históricas de desenvolvimento
da Psicologia enquanto ciência a partir da orientação burguesa. Por outro lado, situamos a sua
evolução histórica no sentido de sua inserção profissional consciente de seu lugar na luta de classe.
2 Revisão de literatura
Com Vygotsky ([1896] 2008) destacamos a importância a Psicologia funcionar pautada sempre em
uma prática contextualizada, eis a noção de uma psicologia sócio-histórica. Produzir conhecimento
sobre o indivíduo é considerar sua realidade concreta, seus determinantes sociais, a cultura, a
linguagem e a mediação.
Na interpretação de Wilhelm Reich (1988) destacamos a cautela necessária para colocarmos as
contribuições marxistas com as práticas psicológicas, há que se sustentar uma leitura mais
criteriosa. O pensamento reichiano comumente é associado apenas a prática clínica oriunda, e
posteriormente dissidente, da psicanálise. Contudo, Reich nos legou uma contribuição valiosa para
a crítica ao funcionamento das sociedades contemporâneas. Sua perspectiva ressalta como
muitas pessoas temem assumir o desejo de liderar movimentos voltados à compreensão das
dinâmicas sociais, um aspecto crucial na luta por demandas coletivas enquanto comunidade.
É urgente convocar as ciências psicológicas para um debate político que reconheça sua a primazia
das contradições da vida e a ausência de harmonia e coesão nas relações humanas. Tais
considerações podemos encontrar nas formulações teóricas de uma Psicologia que inclui os
aspectos sociais, culturais e econômicos. “A sociedade autêntica é uma interpretação profunda de
indivíduos de tal modo que cada um deles exerce uma influência formativa sobre os outros”
(Ratner 2002, 27). A proposta de Ratner é sublinhar essa faceta humana tão importante para
compreendermos a nossa realidade, o aspecto social.
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O autor Ratner (2002) se faz importante para nossa leitura crítica sobre a própria Psicologia. Suas
considerações a partir de Vygotsky nos ajudam a elucidar aspectos fundamentais para
compreender o indivíduo, bem como as relações humanas e as tomadas de decisões na vida
cotidiana. Assim, podemos interrogar visões distorcidas da realidade, equívocos produzidos pelo
próprio sistema capitalista que influencia de maneira universal o funcionamento das distintas
sociedades.
Silva (2022), ao retomar as contribuições de Martín-Baró, nos rememora que o autor problematiza
de maneira contundente a formação em Psicologia, propondo questionarmos o tipo de
conhecimento produzido e apropriado por esta. Em sentido mais restrito, Martín-Baró aponta o
descontentamento com os projetos de “conhecer” da Psicologia que desvalorizam a produção de
saberes nacionais, saberes cujos sentido se dariam na prática profissional (Silva 2022). A formação
acadêmica em Psicologia perpassa o campo político, aos posicionamos no que diz respeito a luta
contra as desigualdades ou a sua negligência.
Nesse sentido vale destacar como diferentes ciências se mantêm enviesadas com certos sistemas
políticos. Neste contexto, todo e qualquer fazer científico orienta os determinantes sociais a
interferirem no comportamento do sujeito, nas suas decisões e em processos inerentes à saúde
mental. O olhar individualizado incide diretamente nessa questão. Libertar a Psicologia, dentre
outros sentidos, é recuperar o que as ciências psicológicas podem ofertar no campo teórico e
prático, a transformação da realidade, fazer desta um lugar mais justo e humanizado.
Se tomarmos o Brasil como referência, nada mais justo apontar para o pensamento de Martín-Baró
como ótima fonte de renovação da Psicologia. Historicamente, o território brasileiro sofre com
forças coloniais. Martín-Baró foi teórico que pensou as situações de conflito, violência, processos
coloniais e a saúde mental (Costa e Mendes 2020). Em Psicologia o fazer teórico ganha outras
potencialidades quando produzido a partir das demandas das distintas realidades vivenciadas.
Assim, poderemos falar em Psicologias.
3 Método
Usamos para coleta e análise de dados deste estudo o procedimento de leitura e fichamento de
artigos e livros sobre o tema. Construímos nossas reflexões por meio de diálogo entre citações.
Elaboramos nosso texto a partir da articulação entre os escritos de Martín-Baró (2017), de autores
que releram suas contribuições e demais autores que se aproximam do marxismo.
Nosso método é qualitativo, conforme Minayo (2009) essa abordagem buscar compreender a
complexidade e permitir uma interpretação dos fenômenos em sua profundidade. Segundo a
autora, a abordagem qualitativa permite explorar as subjetividades e também as relações sociais,
os significados e as experiências. É uma abordagem que tem por objetivo a valorizar a
compreensão e também a analise interpretativa dos dados que foram coletados. O processo de
investigação no método qualitativo permite a descrição e análise do objeto estudado, desnudando
seus elementos e sua dinâmica (Minayo 2009).
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Nossa análise qualitativa acompanha levantamento bibliográfico. Utilizando o descritor “Martín-
Baró” no portal Scielo, considerando artigos relativo à coleção Brasil e escritos em língua
portuguesa, sem recorte histórico3, encontramos apenas 10 estudos publicizados. Alguns
incorporaram o “corpo” de nossas reflexões, outros estão citados em nota de rodapé quando
conveniente.
Esperamos que nosso percurso metodológico tenha propiciado razoável reflexão teórica
permitindo o leitor compreender pelo menos parcialmente as contribuições de Martín-Baró para a
Psicologia e talvez para as ciências humanas de maneira geral.
4 Discussão e resultados
Em um estudo para compreender narrativas e pressupostos ideológicos sobre a Psicologia pode-
se descrever como se supervaloriza o sujeito no seu âmbito individual. Para escapar dos males da
alienação proposta pela ideologia burguesa, o conceito de indivíduo em Marx pode auxiliar nossas
teorias psicológicas. No entanto, parece persistir uma resistência teórica e acadêmica na Psicologia
em incorporar as contribuições contemporâneas do marxismo (Paiva, Oliveira & Valença 2018).
Salientamos que no marxismo não se prioriza uma perspectiva individualista, mas sim todo o seu
contexto social, a realidade onde o indivíduo se insere e interage pela sua capacidade de
atividade/trabalho e consciência. O enfoque sobre o indivíduo, no prisma marxista, aciona os
determinantes socioeconômicos, ou seja, trata-se do homem em sua condição material
(concreta). Silva (2022) reflete que Martín-Baró traz essa valorização da realidade concreta para a
Psicologia. Nossa postura nessa esfera do saber acadêmico, as questões que construímos dentro
dela podem ser direcionadas “ao conhecimento e suas relações com os jogos de poder” e em certo
sentido questionar nossa “responsabilidade com relação aos efeitos e à vida que está sendo
produzida e reproduzida” (Silva 2022, 5).
Embora a psicologia histórico-cultural tem fortalecido a perspectiva do sujeito em seu contexto
social propondo um fazer da Psicologia pautado no indivíduo concreto, consideramos que há muito
a ser revisto e reconsiderado enquanto teoria e prática dentro das diferentes Psicologias. Nesse
sentido, não cabe a ingênua proposta que qualquer perspectiva se baseie nas fundamentações
marxistas. Apenas salientamos a urgência de se considerar contexto, interação, condições
materiais que fornecem o subsidio do desenvolvimento humano. Assim, cada perspectiva teórica
a sua maneira poderia incluir sempre em suas análises psicológicas o meio social. Há que se
destacar de maneira mais enfática como diferentes teorias não consideram a pluralidade da
própria realidade que constrói.
As contribuições teóricas de Karl Marx e Friedrich Engels, revolucionários, se tornaram parte da base
filosófica fundamental para o trabalho de Lev Vygotsky, Wilhelm Reich e outros nomes importantes
para as ciências psicológicas. A perspectiva histórica tão difundida com o marxismo fundamenta
práticas científicas pautadas em uma visão crítica e politizadas. Ou seja, qualquer objeto a ser
3 Tal levantamento indica que o artigo mais antigo na plataforma data de 2003. Alguns trabalhos se restringem ao uso de concepções de Martín-Baró para
exercícios empíricos, portanto não trabalham a fundo sua teorização , são estes: Arruda et al. (2022); Rosa (2020); Ansara e Dantas (2010).
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abordado em ciências humanas possui uma carga histórica, um contexto e determinantes sociais
e culturais em suas entranhas.
Na leitura de Paiva, Oliveira e Valença (2018, 1798-1799), o encontro da psicologia com Marx e Engels
contribuiu para modificar distintas concepções: “o incômodo acerca da análise sobre o sujeito
psicológico permanece talvez sob a justificativa de que, como dissemos, questão do indivíduo não
foi uma preocupação central para Marx”. Dizer que o indivíduo não foi central para Marx e Engels
não significa que deixaram de abordar tal conceito, é que o centro de interesse dos trabalhos
filosóficos fora bastante diverso. Contudo, a filosofia marxista se debruçou com especial interesse
sobre o funcionamento do capitalismo.
No trabalho de construção de uma Psicologia Social de perspectiva marxista, tal como a de Martín-
Baró, o interesse não se resume em compreender o sistema capitalista. Persiste o foco nas tramas
do sistema capitalista e o resultado de suas forças na determinação do indivíduo. Dito de outra
forma, nos interessa a compreensão das lógicas de produção da vida material, a desigualdade, a
desumanização e os demais efeitos próprios do capitalismo e sua luta de classes. Já com Vygotsky
temos uma formulação precisa de uma ciência psicológica interessada na compreensão do
indivíduo humano, “o ponto central da psicologia sócio histórica é colocar a psicologia firmemente
dentro do domínio da vida social e empregar a consciência social como mediação dos processos
naturais e não derivá-la diretamente deles” (Ratner 2002, 39). Assim, cumpre acionar o aspecto
ativo do indivíduo concreto.
Na afirmação acima, Vygotsky na releitura de Ratner (2002), nos traz amostra da Psicologia voltada
para as questões sociais como uma mediadora do sujeito devidamente contextualizado, bem
como sua cultura.
Ao partir sempre da realidade historicamente construída, da sociedade contextualizada, temos um
percurso íntimo das propostas da Antropologia. Conhecer o ser humano em sua singularidade a
partir de sua cultura, situada no tempo e espaço. Laraia (2009) pontua uma questão importante
sobre a forma como podemos compreender os diferentes processos de evolução e
desenvolvimento do ser humano, pois o indivíduo “é o resultado do meio cultural em que foi
socializado” (Laraia 2009, 22). Esse autor salienta o valor da análise sobre o resultado das atividades
humanas. O indivíduo se resulta da complexa interação das ações humanas operacionalizadas na
história. Ao mencionar cultura e processo histórico tratamos de colocar em primeiro plano a
desnaturalização do tempo, da concepção ao qual propõe que os acontecimentos no mundo
humano são lineares e se desdobram livre do meio social.
A antropologia ensina que o indivíduo é formado no seu contexto social, cultural, e justamente a
Psicologia perde muito ao não considerar tal perspectiva. Precisamos refletir sobre os pressupostos
teóricos que “desligam” o sujeito de sua situação material e histórica. Em se tratando de América
Latina, temos séculos de desafios e cabe a Psicologia ser ferramenta de problematização, pois ao
indagarmos “sobre que vida criamos ou que vida obstaculizamos, estamos introduzindo a
Psicologia no campo da política, porque inevitavelmente nos deparamos com desigualdades,
opressões, injustiças, exclusões e gestões da vida” (Silva 2022, 5).
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A crítica reflexiva de ordem libertadora para a Psicologia promovida em Martín-Baró (1997; 2017)
aciona questionamentos sobre práticas despolitizadas e pouco contundentes no quesito
transformação da realidade. Apontou para a necessidade de se compreender e recuperar a
Psicologia de seu estado cristalizado, engessado frente aos ditames de uma classe dominante.
“Assim como a qualidade cientifica será mais importante, as mudanças nas formas fundamentais
de convivência não permitirão ao psicólogo viver de formulas feitas” (Martin-Baró 2017, 28). Em
ampla medida as ideias de Martín-Baró pressupõem uma movimentação teórica distinta da
tradicional ciência psicológica. Em Psicologia deve-se recusar propostas teóricas que respondem
de maneira universal e generalizante as questões humanas. O caminho é problematizar as
propostas conceituais que nos impele a armadilha da naturalização de diferentes aspectos do
indivíduo na sociedade.
Assim, os textos de Martín-Baró (2017) exploram de forma concisa e nítida a maneira como a
Psicologia deve buscar formas de se renovar e progredir como ciência. A proposta seria acionar a
Psicologia para dar conta das necessidades das sociedades contemporâneas, no sentido de
atender os anseios do povo. De acordo com as novas investigações em tal perspectiva, seria
possível facilitar o desenvolvimento da construção de nova sociedade que não para de evoluir.
Assim, cabe a própria psicologia construir-se para
[...] desenvolver a capacidade de dar respostas às novas experiências que se
desenvolverão, novos problemas e exigências que surgirão no processo de construção,
os novos problemas e exigência que surgirão no processo de construção de uma nova
sociedade. (Martín-Baró 2017, 28)
É com o esforço de se produzir teorias para (re)contextualização da Psicologia que se pode colocá-
la em direção de atender uma demanda evolutiva urgente para a sociedade. É a atividade humana
que move a ciência, é através do trabalho, em sua conceituação transformadora, que se pode
estabelecer ações para buscar pela libertação da própria Psicologia. Afinal, a Psicologia não se faz
afastada de seu objeto que, na perspectiva marxista, é vivo e opera transformações em suas
relações. A Psicologia é feita por indivíduos situados em suas sociedades. Com o percurso sobre os
escritos de Martín-Baró visamos explorar a essência de uma ciência voltada para a dimensão
social do sujeito, este que não pode ser compreendido fora de suas múltiplas dimensões reais
(materiais), nisso se encontra o meio cultural e social. Por isso devemos empreender valor maior
para o processo de formação dos profissionais de Psicologia.
Uma formação universitária não pode ser reduzida a uma realização pessoal nem a uma
simples inserção no mercado, porque, no primeiro caso, estamos reduzindo o trabalho a
um percurso pessoal e individual que diz respeito somente àquele que trabalha e, no
segundo, estamos reduzindo o trabalho à adaptação a uma dimensão da estrutura
social dada: o mercado. (Silva 2022, 7)
A citação acima toma como ponto de partida reflexões de Martín-Baró as quais nos alerta
para as armadilhas do reducionismo e das falsas leituras que o sistema social nos impele.
Mas desta visão de como se configura o indivíduo, é possível debruçar-se não apenas
sobre as ações individuais, como também sobre a luta política em geral. Às destinadas
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conformações dos indivíduos na sociedade moderna tenderão a corresponder
especificas lutas políticas, formas organizativas e valores simbólicos. (Paiva, Oliveira &
Valença 2018, 1807)
Conforme esta outra citação, vivenciar o meio social é estar exposto ao “enquadramento” político.
No entanto, os indivíduos atuam em um contexto composto de possibilidades de renovação. Seja
fora ou dentro da esfera acadêmica concernente a Psicologia, os indivíduos funcionam sobre
determinadas influências sociais e históricas. Jogos de ideologia promovido pelo sistema
capitalista.
Os autores Costa e Mendes (2020, 7) afirmam que Martín-Baró analisa
as relações entre a constituição colonizada e, posteriormente, de imperialismo
estadunidense, com a situação de guerra e implicações para a saúde mental. Para
realizar essa empreitada, parte da concepção de saúde mental como a “materialização,
na pessoa ou no grupo, do caráter humanizador ou alienante de uma estrutura de
relações históricas [...], contrapõe compreensões, segundo o próprio, muito pobres sobre
a saúde mental, que vão desde a ausência de transtornos psíquicos até o pleno e
homeostático funcionamento psicológico. Com isso, também critica noções de que
saúde mental seria uma expressão interna individual e individualizada, produzida no
vazio histórico. A própria separação entre saúde e saúde mental, nos indica uma
tendência a compreensões reducionistas e cartesianas: predominantemente
organicista, no caso da primeira, e psicologizante no da segunda, como se físico e mente
estivessem apartados, bem como o individual do social.
Esta última citação traduz de maneira explícita o posicionamento de Martín-Baró sobre a saúde
mental, na medida em que esta não deve ser avaliada desconecta do contexto, da política e dos
acontecimentos históricos.
Considerando tal perspectiva, uma Psicologia Social poderá estimar um novo olhar crítico em
relação ao desenvolvimento social e político, destrinchar as tramas ideológicas que tendem a
“ocupar” as consciências dos indivíduos. O que por sua vez pode influenciar as Psicologias de
maneira geral. Uma Psicologia que se serve dos conceitos de Martín-Baró dificilmente cairia nas
leituras frágeis que promovem a patologização da vida e que permitem os excessos de
diagnósticos descabidos, por exemplo. Martín-Baró analisava as questões sobre saúde mental em
seu caráter histórico, tendo em vista o panorama colonial e mercadológico (Costa e Mendes 2020).
Não cabe aqui superestimar a Psicologia Social sobrepondo-a a outras Psicologias. Acontece que
as ciências psicológicas que não abarcam a dimensão social de seu objeto só podem fazer uma
leitura mutilada da realidade.
Martin-Baró foi teórico acerca da conscientização como estratégia revolucionária. Em seu
destaque para a contextualização, sublinhava a “confrontação de classes que ocorre em nossas
sociedades”, mostrando o embate político “como um instrumento de poder que pode contribuir
tanto para a humanização quanto para a submissão alienante” (Martin-Baró 2017, 76). O autor
discorre sobre o poder da sociedade de classes característica do mundo capitalista. O poder diante
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do sujeito tanto pode elevar como alienar para atingir seus propósitos. Noutro sentido, são as
organizações sociais, movimentos sindicais que historicamente tem alimentado os processos de
humanização.
Vale destacar que a noção de poder trabalhada por Martín-Baró possui influência da filosofia de
Michel Foucault, ao qual o poder é de ordem social, relacional e acontece entre diferentes indivíduos
e grupos (Martins, 2003). O conceito de poder enquanto seu aspecto relacional indica que não se
trata de uma substância, o poder se exerce, é contextualizado e historicamente situado. O poder
em si mesmo não é ferramenta de alienação embora possa ser usado como tal.
Para Martín-Baró (2017), é possível desenvolver novas ferramentas para a defesa dos interesses do
povo, contrapondo-se aos processos de alienação. No entanto, o embate social não oferece
garantias, podendo resultar em confrontos de classe que frequentemente levam à submissão,
deixando a sociedade em estado de alienação. A questão da alienação é traduzida pela ação
humana isenta de questionamentos. Ou seja, as consciências que perdem a percepção do valor
de si e da realidade, bem como dos valores que suas atividades produzem. Pois, diante do domínio
perpetrado pelo capital, é neste momento que a psicologia social deve estar com um olhar crítico
para desvalidar esta alienação.
Obviamente, o modelamento diferencial dos membros das classes dominantes e
dominadas não e um processo mecânico e uniforme. mas histórico, isto é, determinado
pela especificidade de cada situação e de cada circunstancia concreta. Por isso, não se
pode esperar encontrar um fatalismo homogêneo e total em todos os grupos e pessoas
das classes dominadas. (Martín-Baró 2017, 192)
Na conjuntura em que as classes dominantes persistem sobre classes dominadas, o pensamento
de Martín-Baró demostra como um mecanismo histórico negligenciado pode significar falsas
leituras sobre o mundo. Em certo sentido, mesmo o profissional de Psicologia está fadado a riscos
de produzir frágeis leituras sobre a realidade compreendendo-a de maneira fatalista. A ideia de
fatalidade concerne a uma concepção de mundo de que nada pode ser feito para modificar a
realidade.
Do contrário, ao efetuarmos uma interpretação crítica que alcança os determinismos dentro do
processo histórico recuperamos caminhos para modificar e intervir na realidade. O mundo se
movimenta sobre a influência do embate e luta de classes. Em se tratando de perspectivas
psicológicas, compreender o indivíduo só é possível quando destacamos os aspectos do cenário
político em que ele se insere.
Embora a dinâmica entre as classes sociais possa ser melhor apreendida com conceitos da
Psicologia Social, nada impede que outras Psicologias se inteirem e integrem dos múltiplos fatores
do campo social que constrói as subjetividades. Em resumo, com base em nossa leitura de Martín-
Baró (2017), não conseguimos apreender a essência do desenvolvimento humano se
desconsideramos aspectos relativo à desigualdade social.
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A visão que constata e inclui as diferenças de classes e demais aspectos do mundo social tende a
intensificar o poder de análise. Conforme o prisma antropológico de Laraia (2009), em se tratando
de ciências humanas, ao nos conscientizarmos sobre a complexidade do mundo social fica mais
difícil cairmos no erro de perpetuar discriminações e justificativas para as desigualdades. O autor
nos aponta sobre os efeitos nos indivíduos quando oriundos de classe subordinada, a trama social
acaba sendo grande obstáculo para seu pleno desenvolvimento.
Dessa forma a sociedade tem muito a ganhar se a Psicologia passe a reformular e articular suas
matrizes teóricas com a vida cotidiana.
Na medida em que a psicologia tome como seu objetivo específico os processos da
consciência humana, deverá atender ao saber das pessoas sobre si mesmas, enquanto
indivíduos e enquanto membros de uma coletividade. O saber mais importante do ponto
de vista psicológico não é o conhecimento explícito e formalizado, mas esse saber
inserido na práxis quotidiana, na maioria das vezes implícito, estruturalmente
inconsciente, e ideologicamente naturalizado, enquanto adequado ou não às realidades
objetivas, enquanto humaniza ou não às pessoas, e enquanto permite ou impede os
grupos e povos de manter o controle de sua própria existência. (Martin-Baró 1997, 14-15)
O trecho acima demonstra determinado caminho para a Psicologia responder de maneira ética
as demandas sociais, considerar o âmbito coletivo da vida cotidiana. Não atoa Martín-Baró
construiu reflexões preocupado com os funcionamentos grupais concernentes ao indivíduo
(Martins 2003).
As reflexões de Martín-Baró (1997) sobre o papel do psicólogo descrevem a forma de se construir
abordagem analítico-crítica: exame minucioso das raízes histórica dos fenômenos de interesse das
distintas investigações. A mesma historicidade deve ser considerada para elaborar a base
científica que empreende tal análise. Assim se examina o objeto e os conceitos que embasam o a
investigação do objeto.
Sintetizamos as contribuições de Martín-Baró (2017): deve-se manter uma constante dupla-análise,
assim se constrói vias razoáveis para se um novo olhar sobre consciência humana. Além disso,
enquanto profissionais de psicologia devemos analisar criticamente os objetos concernente a
realidade humana; concomitante, devemos analisar o ferramental teórico que sustenta tal análise.
Diferentemente de se pensar a ciência psicológica enquanto algo superior, deve-se buscar fazer
com que a Psicologia atenda as reais demandas todas as classes independentes de seu poder
aquisitivo. Dessa maneira, torna-se possível a libertação da Psicologia, fazendo-a trabalhar em prol
de todos os indivíduos humanos, pois o foco é construir uma realidade mais digna respeitando
todas as diferenças.
É o meio cultural, ideológico e também social que gesta as ferramentas conceituais da Psicologia.
É o fazer da atividade humana através da histórica que impregna e influencia o fazer de dentro das
distintas esferas científicas. Todas as práticas humanas em sociedade têm seu aspecto ideológico.
Em sentido semelhante, o contexto fornece as possibilidades da atividade humana e o que ela pode
produzir. Conforme Marx e Engels (1984, 15) “O modo como os homens produzem os seus meios de
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vida depende, em primeiro lugar, da natureza dos próprios meios de vida encontrados e a
reproduzir”. O indivíduo não se desconecta de seu meio, os aspectos comportamentais e sua
consciência tem um lugar e um tempo como referência. Mas sobretudo a atividade humana tem
seus determinantes históricos, sociais, ideológicos e culturais.
A Psicologia é feita por indivíduos e não existe fora da atividade humana. Quais determinantes
sociais fazem com que a Psicologia aconteça? A Psicologia não se dá fora do processo histórico e
seus infinitos debates políticos. A sobrevivência de ciências engajadas com processos de
humanização, ou seja, ciências comprometidas com a luta contra a opressão e desigualdade
depende muito de como compreendemos e enfrentamos as ideologias que as enfraquecem. Há
muitos fatores que tem pressionado a Psicologia, em especial, para atender interesses dominantes.
Lembramos que a regulamentação da Psicologia no Brasil se dá no contexto de ditadura ao qual
miríade de forças sociais podiam “convocar” as distintas esferas do país a se aliarem e
compactuarem com práticas repressivas (Correia e Dantas 2017). A própria história da Psicologia
brasileira vem dificultando-a conquistar relativa “maturidade” para compreender as
complexidades referentes ao ser humano e, por conseguinte, ofertar intervenções contundentes
para transformação da realidade.
O contexto acaba por ser categoria fundamental em Martín-Baró (2017), e serve para situarmos o
lugar e os rumos da Psicologia. Qual contexto a Psicologia está sendo aplicada? Para que serve o
fazer psicológico? Para Martín-Baró (2017) devemos situar nossa prática sempre voltados a atender
o social:
O psicólogo social deve manter uma postura crítica diante dos processos históricos: não
cabe ao psicólogo deixar de ser a racionalidade da guarda nacional apenas para ser a
racionalidade dos guardiães ideológicos, mas deve se tornar guardião da racionalidade
social. (Martín-Baró 2017, 81)
Destacamos como o profissional de Psicologia tem o dever de incluir em seu exame da realidade
questões sobre diversidade, contradições e conflitos. Considerar uma racionalidade social é buscar
incluir o funcionamento da sociedade com todas suas nuances. Não há Psicologia razoavelmente
crítica que desconsidere o social. Pensar o contexto é considerar a realidade das estruturas de uma
determinada sociedade. Não tratamos dados naturais, mas históricos e culturais. A Psicologia
pensada com Martín-Baró (2017) visa o aspecto da construção resultado do funcionamento e da
atividade humana através dos grupos e das pessoas. Há aquilo que se constrói em cada
sociedade, há contextos e configurações sociais a serem examinadas. Cada contexto permite e
produz indivíduos situados historicamente.
Ao recuperarmos a visão crítica sobre diversidade vista por Martín-Baró, identificamos o caráter
dialético entre Psicologia e sociedade, entre profissional de Psicologia e a realidade. Sobre a
dialética Marx ([1890] 2017) destaca haver uma relação entre cultura e consciência, a cultura não
pode ser objeto externo e desconectado a produção de ideias e, portanto, dificilmente poderia ser
examinado por uma consciência desconectada dela. Refletimos como a Psicologia, enquanto
resultado de “consciências”, está sempre em relação com a cultura e o contexto. Dessa forma,
consegue-se pensar como há uma dialética entre o fazer da Psicologia e a construção da
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realidade. Para compreender melhor a noção de dialética, é necessário concebê-la sobre o prisma
da interação dos contrários em sua manifestação concreta:
Quando deu à dialética a configuração materialista necessária, Marx expurgou-a das
propensões especulativas e adequou-a ao trabalho científico. Ao invés de subsumir a
ontologia na lógica, são as categorias econômicas e sua história concreta que põem à
prova as categorias lógicas e lhes imprimem movimento. A lógica não se identifica à
ontologia, o pensamento não se identifica ao ser. A consciência é consciência do ser
prático-material que é o homem. A dialética do pensamento se torna a reprodução
teórica da dialética originária inerente ao ser, reprodução isenta de esquemas pré-
construídos e impostos de cima pela ontologia idealista. Mas, ao contrário de reprodução
passiva, de reflexo especular do ser, o pensamento se manifesta através da ativa
intervenção espiritual que realiza o trabalho infindável do conhecimento. Trabalho
criador de hipóteses, categorias, teoremas, modelos, teorias e sistemas teóricos.
(Gorender 2017, 33)
Na ótica da categoria da dialética marxista não pode haver construção do pensamento fora da
sua realidade material. Assim, não pode ser possível construir uma Psicologia sem considerar sua
interação com a realidade contextualizada. A perspectiva marxista valoriza as questões culturais
para considerarmos como se constitui as consciências. Uma perspectiva histórica, enxerga o
indivíduo devidamente inserido em seu meio social.
Se atualmente possuímos sociedades marcadas pela lógica do capitalismo, notamos facilmente
os mecanismos de produção de camadas de classes sociais, interligadas. Acontece que o
capitalismo se sustenta com a exploração própria do intercâmbio perverso entre classes. Temos
então uma realidade permeada por processos de desumanização.
O fato de vivermos sob o capitalismo e a complexidade crescente da sociedade
moderna impedem-nos de ser verdadeiramente sujeitos. A tendência geral do
capitalismo é constituir o homem como mero suporte do capital, que o determina,
negando-o enquanto homem, já que se torna algo coisificado [...] (Ciampa 1994, 72)
A citação acima consiste em pequena amostra de muitas outras reflexões que compõe o livro
Psicologia Social; o homem em movimento, organizado por Silvia Lane e Wanderley Codo (1994).
Esse material reúne coletânea de textos que se ancoram em uma perspectiva materialista e
histórica. Em amplo sentido se relacionam com as reflexões de Martín-Baró.
Com Martín-Baró (2017) e sua perspectiva crítica herdada em partes do marxismo, promove leitura
criteriosa do funcionamento do sistema capitalista. Na linha de raciocínio de Ciampa (1994), nos é
válido afirmar a urgência de conceber que no seio capitalista o indivíduo tem sido impedido de ser
um verdadeiro sujeito. Isso significa que há diferentes mecanismos de impedir que o ser humano
possa ter autonomia.
Na progressiva e crescente relação do indivíduo com o capitalismo, a Psicologia se enfraquece e
tende a funcionar sobre a lógica do “psicologismo”, o que Martín-Baró (2017) traduz como
perspectiva do individualismo. Inseridos nessa realidade muitos psicólogos aderem a conceitos de
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perspectiva individualista, é necessário “mergulhar” no sujeito. “Em outros termos, o social é visto e
compreendido a partir do individual” (Martín-Baró 2017, 145), embora o autor traz ênfase a Psicologia
Social, compreendemos que boa parte das Psicologias herdam essa forma de abordar o indivíduo.
Olhar descontextualizado. Psicologia individualista. Novamente, a libertação da Psicologia tem a ver
com considerar o meio social.
O mundo contemporâneo sofre com essa perspectiva individualista. Diferentes perspectivas
teóricas têm nos alertado sobre essa questão. Para Mondin (1980, 111) é razoável questionarmos
sobre nossa liberdade: “hoje, a liberdade não é mais comprometida por forças extramundanas ou
infra-humanas, mas por forças sociais, criadas pelo próprio homem, e que agora viram-se contra
ele. O problema é encontrar a forma de conciliar o progresso com a liberdade”.
Nossa realidade é inundada por forças sociais construídas pela lógica do capitalismo. Tais forças
são carregadas de elementos ideológicos que nos deixa alienados sobre seu funcionamento.
Somos envolvidos pelos discursos individualizantes, deixamos de perceber os aspectos históricos,
sociais e econômicos.
Dessa forma, a crítica uma psicologia individualista terá que rever os paradoxos e contradições de
uma sociedade em constante construção e evolução. Os elementos principais são de ordem social
O indivíduo humano não pode ser compreendido em sua totalidade quando desconsideramos
seus aspectos sociais e históricos. Nesse sentido, nenhuma Psicologia pode efetuar uma leitura,
avaliação e intervenção devidamente efetiva na realidade se continuar a ser orientada
erroneamente. orientada pela. De acordo com Martin- Baró (1997), o profissional de Psicologia tem
o seu papel de buscar por uma formação que subsidie sua prática potencializada para produzir
respostas éticas.
Encerramos nossas discussões citando uma importante reflexão sobre o papel dos profissionais de
Psicologia:
Discutir o papel do psicólogo revela a necessidade contínua de uma prática que não se
esquive de seus princípios fundamentais, tão claros no Código de Ética Profissional. É
construir um hoje com atitudes que atendam às necessidades das pessoas, ou seja,
como prestadores de serviço para o social e coletivo, contribuindo para a ampliação de
consciências, ajudando as pessoas a superarem situações alienantes, considerando os
contextos vivenciados e os impactos da sua atuação profissional frente aos sujeitos. As
discussões até aqui empreendidas possuem caráter preventivo, pois podem evitar
práticas elitistas e normalizadoras, mas também caráter interventivo, por vislumbrar
caminhos a seguir, sugerindo aos psicólogos que mantenham uma postura crítica frente
a sua realidade. Ainda assim, frente a uma realidade opressora e paradigmática, que
esse profissional conscientize-se sobre seu papel, que não aceite também ser violentado
com cenários de desvalorização e que transforme a si mesmo, para transformar o outro
em sua jornada. Por tanto, que seja um “quefazer” baseado nos aspectos da
conscientização de transformação de si, decodificação da realidade e transformação
da realidade. (Correia e Dantas 2017, 79)
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5 Considerações finais
A nossa pesquisa pontua elementos importantes para pensarmos questões relativo à psicologia
individualista.
Com as reflexões de Martín-Baró compreendemos o valor de trabalharmos em Psicologia
considerando o contexto como categoria. Com as contribuições deste autor enxergamos a
realidade atual como resultado de processos históricos que nos pressiona a atender determinada
classe dominante. Justamente nesse contexto é que reside a demanda de atuarmos pela
assunção de uma Psicologia libertadora.
O mundo contemporâneo está povoado de desigualdades sociais. A libertação das distintas
Psicologias fortaleceria ferramental teórico-metodológico para atuarmos contra essa realidade
adoecedora.
A análise de maneira reflexiva sobre as possibilidades de se construir olhar crítico sobre a Psicologia
desnuda a nossa íntima interligação com ditames do sistema capitalista; os indivíduos estão
fadados a perder o aspecto humano de sua identidade quando absorvidos na lógica de opressão
e exploração ininterrupta.
Nossa pesquisa demonstra que o fazer teórico dentro da Psicologia que se nutre de determinadas
concepções marxistas pode se tornar via de leitura e compreensão do indivíduo em sua totalidade.
A noção de dialética do marxismo nos tem instrumentalizado interpretar como a Psicologia e seus
profissionais estão em interação com o mundo, com a realidade, ao qual o “quefazer” não se
desprende do contexto histórico.
Enquanto profissionais não podemos nos enganar que dentro da Psicologia estamos “protegidos”
de questões políticas e, portanto, atuamos de forma neutra. Os aspectos ideológicos e econômicos
nos “atormentam” via relações sociais. Estamos dentro de uma esfera científica extremamente
porosa e sensível as forças sociais e transformações do mundo. Cabe reconhecermos a dialética,
interação própria com a realidade ao qual determina nosso papel enquanto psicólogas e
psicólogos.
Qual nossa postura frente a crescente desigualdade social? Se permanecemos ávidos com tal
questionamento podemos lidar melhor com determinadas armadilhas postas na realidade. Como
nos livrar das forças sociais que visam instaurar em nós perspectivas individualistas,
preconceituosas e que permitem construção de concepções que naturalizam situações que são
construídas? Com o pensamento de Martín-Baró podemos nos munir de certa astúcia
contestadora para seguirmos firmes no projeto de uma Psicologia humanizadora.
Se há certo predomínio elitista na Psicologia que a faz ser tão inerte sobre o caráter desumano da
realidade, podemos reconhecer nossa parcela de culpa, se permanecemos negligentes. Talvez ao
envergonharmos dessa culpa passamos a construir o sentido de responsabilidade e conseguinte
poderemos atuar para valorizarmos uma vida mais digna para todos os indivíduos e sociedades.
—Rev. nuestrAmérica, 2025, n. 26, publicação contínua; Marcelo Vinicius Costa Amorim; Maria Aparecida da Costa Chiovato—
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—Rev. nuestrAmérica, 2025, n. 26, publicação contínua; Marcelo Vinicius Costa Amorim; Maria Aparecida da Costa Chiovato—
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Biodata
Maria Aparecida da Costa Chiovato: Licenciada em Geografia pela Universidade Estadual de Goiás,
Brasil (2012). Graduada em Psicologia da Integra - Faculdades Integradas da América do Sul –
INTEGRA, Brasil (2024).
Marcelo Vinicius Costa Amorim: Graduado em Psicologia (bacharelado e licenciatura) pela
Universidade Federal de Goiás, Brasil (2019). Doutor em Estudos da Linguagem pelo Programa de
Pós-graduação da Estudos da Linguagem da Universidade Federal de Catalão, Brasil (2021).
Docente do curso de Psicologia da Integra – Faculdades Integradas da América do Sul, Brasil (2023).
Professor substituto do Instituto de Biotecnologia da Universidade Federal de Catalão, Brasil (2024).
Pesquisador do Grupo de Estudos Discursivos, Brasil (2021).
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