Estado fuerte en combate al liberalismo: el proyecto antisemita integralista de Gustavo Barroso para el Brasil de los años 1930 - vLex Chile

Estado fuerte en combate al liberalismo: el proyecto antisemita integralista de Gustavo Barroso para el Brasil de los años 1930

Páginas431-459
Fecha01 Julio 2019
Fecha de publicación01 Julio 2019
AutorCícero Filho
MateriaCiencias sociales
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Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930
Estado fuerte en combate al liberalismo: el proyecto antisemita integralista de Gustavo
Barroso para el Brasil de los años 1930
Strong State in the fight against Liberalism: the integralist anti-Semitic project of Gustavo
Barroso for Brazil in the 1930s
Cícero João da Costa Filho
Doutor
Aluno do Pós-doutorado pelo Programa de Pós Graduação
em História Social da Universidade de São Paulo
São Paulo, Brasil
cicerojoaofilho@gmail.com
ORCID: http://orcid.org/0000-0001-5246-8201
Resumo: O projeto integralista almejado por Gustavo Barroso baseava-se no modelo de Estado forte. Diferente
da postura de Plínio Salgado e Miguel Reale, que não carregavam o racismo contra a figura do judeu, Barroso
pensa a formação do novo Brasil com a eliminação do ‘Povo de Israel’. O judeu era o responsável pelas mazelas
do Brasil e do mundo, devido seu caráter anárquico, usurpador, ganancioso, capaz de tudo para obtenção do
capital. O liberalismo era conforme Barroso criação judaica, que trouxe ao mundo a miséria social e o caos,
quebrando a harmonia social dos tempos medievais. Por isso, o liberalismo devia ser combatido, sob todas as
frentes, representado pelo ju deu, uma raça de bandidos e criminosos. Comparado a seres infecciosos, era
preciso eliminar o judeu para a formação do Brasil integral, pois este era o inimigo número um do país. O
liberalismo era um dos principais responsáveis pelo caos político e social, tornando uma sociedade cada vez
individualista e materialista, carecendo de um Estado totalitário que colocasse disciplina e ordem. O Brasil
pensado por Barroso está na contramão da figura do judeu e suas criações, na ótica do autor, por isso suas
críticas e seu racismo a uma raça racista, que não se misturava, não tinha amor a sua pátria, tirava amor da luta
de classes e ia fazer a revolução na terra dos outros.
Palavras-chave: integralismo; liberalismo; Gustavo Barroso; racismo; nação.
Resumen: El proyecto integralista pensado por Gustavo Barroso es un proyecto extremadamente complejo y
minucioso, basado en la renovación espiritual, en el combate al materialismo judío, responsable de la serie de
males nacionales y mundiales. El liberalismo di solvente, el materialismo, el marxismo, el comunismo, eran
tenazmente combatidos por Barroso. Aunque el escritor afirme que el integralismo no es un movimiento político,
sino cristiano, el Brasil fuerte pensado por el integralista es el encuentro entre el Estado y la Nación, donde la
totalidad, la "reunión", la "suma", la "suma, prevalece en detrimento de lo particular. El marxismo y el liberali smo
son enemigos del modelo de Estado pensado por Barroso, viabilizando la 'verdadera' democracia.
Palabras clave: integralismo; marxismo; estado; nación; democracia.
Abstract: The integralist project thought by Gustavo Barroso is an extremely complex and meticulous project,
based on spiritual renewal, in the fight against Jewish materialism, responsible for the series of national and world
evils. Dissolving liberalism, materialism, Marxism, communism, were tenaciou sly opposed by Barroso. Although the
writer affirms that integralism is not a political movement, but a Christian, strong Brazil thought by the integralist is
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930; Revista nuestrAmérica; ISSN 0719-3092;
Vol. 7; núm. 14; julio-diciembre 2019──
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the encounter between the State and the Nation, where 'totality', 'reunion', 'sum' to the detriment of the
individual. Marxism and liberalism are enemies of the model o f the state thought by Barroso, enabling the 'true'
democracy.
Key words: integralism; marxism; state; nation; democracy.
Fecha de recepción: 2 de octubre de 2018.
Fecha de aceptación: 25 de enero de 2019.
Citar este artículo:
Chicago (Autor/a año)
Costa Filho, Cícero João da. 2019. Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista
de Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930. Revist a nuestrAmérica 7 (14): 431-59.
Chicago (notas)
Costa Filho, Cícero João da, “Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930”, Revista nuestrAméri ca 7, no. 14 (2019): 431-59.
APA 6a ed.
Costa Filho, C. da. (2019). Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930. Revi sta nuestrAmérica, 7 (14), 431-459.
MLA
Costa Filho, Cícero João da. “Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930”. Revista nuestrAmérica, vol. 7,14, 2019, pp. 431-459. Ediciones
nuestrAmérica desde Abajo Ltda. Web. [fecha de consulta].
Harvard
Costa Filho, C. da. (2019) “Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930”, Revista nuestrAméri ca, [en linea] 7(14), pp. 431-59. Disponible en:
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ISO 690-2 (Artículos de revistas electrónicas)
Costa Filho, Cícero João da, Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930. Revista nuestrAmérica [en linea] 2019, 7 (Julio-Diciembre): 431-459
[Fecha de consulta: xxxxxx] Disponible en:<URL> ISSN 0719-3092.
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── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
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Introdução
O Brasil pensado por Gustavo Barroso seria conforme o projeto integralista e seu Manifesto
de 32, um Brasil de ‘Estado Forte’. Os problemas brasileiros eram tantos que apenas um
novo modelo político, baseado no fascismo italiano e no nacional socialismo alemão era
capaz de fornecer o caminho para uma nação forte, capaz de viabilizar a chegada da
verdadeira democracia, onde o Estado se identificava com a Nação. Com uma das
máximas esboçadas no Manifesto de 32 de que Deus dirige o destino dos Povos, a postura
integralista de Barroso combatia o principal inimigo da humanidade, que era a figura do
judeu. A Moral passava a ser de fundamental importância na criação da sociedade
defendida pelo escritor, como também para outros integralistas. Grosso modo, lembremos
que o movimento criado por Plínio Salgado foi um movimento formado por elementos
católicos. A obra de Barroso traz o manual da nova sociedade ‘integral’, uma sociedade
expurgada dos danos provocados pelo ‘Judaísmo Internacional.
Intelectual, para Barroso a Igreja era a principal formuladora da política, apontando o
regime político ideal, no combate a figura do judeu, para o escritor responsável pela
miséria social e pelos males do Brasil e do mundo. A mensagem da Igreja, sua Moral e Ética,
formam as bases políticas do pensamento de Barroso. A legitimidade da propriedade
privada, a defesa do espírito, da família, das corporações, é crucial para compreendermos
a obra integralista do escritor cearense, são esses elementos que facultam o surgimento do
novo homem brasileiro em sua nova pátria. Formar o Estado brasileiro é eliminar os
entraves de sua formação, que são as ‘manifestações judaicas’, dentre elas, o surgimento
da democracia liberal.
O integralista se apoia no pensamento cristão para daí elaborar seu pensamento político e
ideológico, trazendo como principal argumento narrativo a relevância de uma raça ou
de um povo com inclinações que vão desde os pequenos golpes até o assassinato de
crianças para utilização nos rituais judaicos. Nada melhor que apelar ao ‘indiscutível’, ao
sagrado, mantendo de pé sua concepção, ou melhor, a palavra de Deus traz a esperança
dos novos tempos anunciados por Barroso. Suas palavras remetem a força e a segurança
do sagrado doutrinando os homens a se comportarem contra o mal, a partir de valores
que começam no seio familiar, a mais importante célula social. Se vive um mundo guiado
pelo materialismo judaico, que destrói tudo que encontra pela frente, só a mensagem de
Deus pode salvar o trágico quadro social e político. Raça de criminosos e bandidos,
inclinado a tudo que é ruim, para Barroso o judeu era o maior inimigo do Brasil e do mundo!
Estava estabelecida a cruzada que desde o declínio de Roma se via a par de uma ‘filosofia
dissolvente’ que contaminou o ocidente diante do arabismo de Averróis e Avicena. Aliás,
desde a crucificação o judeu mostrava seu lado traiçoeiro e fadado a ‘sair por aí’, por não
possuir pátria errava aos mais distantes lugares do mundo, sua preocupação primeira era
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ganhar dinheiro, se embrenhando nos mais variados segmentos comerciais, que ia desde
proprietário da indústria cinematográfica até comerciante de armas, drogas e mulheres.
Visto ora como ‘povo’, ora como ‘raça’, o judeu era o ‘verdadeiro anticristo’, com um
plano arquitetado de dominação mundial, sendo urgente combater essa ‘força do mal’. O
judeu domina tudo, é o ‘Capitalismo Internacional’, uma força que se espalha cada vez
mais pelo mundo
Há séculos, os filhos de Israel desprezados e perseguidos trabalham para abrir um
caminho para o poder. Tocam o fim. Sua influência é preponderante sobre a
política e os costumes. Na hora que quiserem, marcada de antemão,
desencadearão a revolução que arruinará todas as classes da cristandade e
escravizar-lhe-á definitivamente os cristãos. Assim se cumprirá a promessa de Deus
feita ao seu povo” (Barroso 1935, 124).
Uma vez que tudo é ‘criação judaica’, a fala de Barroso é uma fala de eliminação ao
‘Povo de Israel’, uma verdadeira cruzada para deter aquilo que corroía toda e qualquer
sociedade. Bem ou mal escritos (encontramos visões divergentes quando a elaboração
integralista de Barroso) os textos de Barroso são panfletos enormes poucos convidativos a
reflexão, como lembra Cytrynowicz (1992). Toda sua produção antissemita objetiva historiar
a malevolência do judaísmo (Costa Filho 2019). Criador do liberalismo, responsável pela
‘filosofia dissolvente’ que influenciou a Revolução Francesa, consolidando a destruição, a
modernidade que se abriu apenas fez continuar o caos. O mundo harmônico esteado
pelos valores pregados pela Igreja e pelas corporações ruiu, agora o que reinava absoluto
era o caos, provocado por homens materialistas que ao longo da história destilaram seu
espírito de ganância. O materialismo, fundamentação do judaísmo, gerou homens céticos
e ateus, que cada vez mais expandiam seu raio de ação. A história e a concepção de
Barroso tratam da malevolência do judeu, o sentido de suas palavras é a concepção
negativa sobre o ‘Povo de Israel’, por isso o vamos encontrar temas diferentes.
Liberalismo, comunismo e maçonaria revelam a figura do judeu, um ser inclinado à tática
dos pequenos golpes a fim de tomar o poder, sujeito traiçoeiro e inassimilável, que sempre
amou o segredo, mostrando peculiaridades de sua raça registradas no Talmud.
Para Barroso o socialismo era mais uma obra judaica, a chegada ao comunismo era
passagem natural do socialismo, quando o mundo presenciaria a besta, como nas
pregações do profeta Daniel. Alegava Barroso que uma sociedade sem classes era o sonho
de judeus burgueses, destruindo o modelo harmônico de sociedade medieval fundada sob
a hierarquia e sob o principio de autoridade. Uma sociedade sem classes sociais conforme
os seguidores de Marx representava uma sociedade gerida pela malevolência judia, que
tinha como característica a exploração do homem pelo homem, escravizando cada vez
mais o proletariado e dificultando as condições de sobrevivência da população em geral.
Era o império de Ram!
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O escritor integralista Gustavo Barroso
Barroso remete as encíclicas para resolver o caos mundial que tinha a figura do judeu
como principal responsável. Diga-se de passagem, o autor busca a formação de um
‘Estado Social Cristão’, ainda que alterne passagens afirmando ora ser o integralismo um
‘movimento político’, ora ser este um ‘movimento cristão’. Na verdade baila na cabeça de
Barroso um Deus que comanda, sua palavra é indiscutível, daí o apelo a um chefe espiritual
com sua argumentação maior de ser o integralismo um movimento em que o homem é
guiado por uma ‘ideia’. Era a lógica de que “Deus rege o destino dos Povos”, a maior
máxima do integralismo em busca de implantar no Brasil um governo forte, por natureza
antidemocrata.
Barroso transcreve literalmente em Integralismo e Catolicismo (1937) duas encíclicas
mostrando seu pensamento conservador e católico de que o mundo é por natureza
ordenado, reabilitando Aristóteles e São Tomas de Aquino (este retomou a ideia do direito
natural do primeiro), pilares de seu pensamento, reacionário e temeroso pela ‘anarquia do
número’. Defensor da propriedade privada e da hierarquia de classes, dentre outros
aspectos, o pensamento de Barroso girava em torno da Cidade de Deus. Era sob o
‘princípio de autoridade’, onde a disciplina e a união de todos os brasileiros buscavam criar
o novo país pensado pelos integralistas.
Seus livros tratam de combater a figura do judeu, dando a receita de como se livrar deste
para a chegada de um novo Brasil. Como já mencionamos, as obras do autor a todo
instante reforçam a maldade do ‘Judaísmo Internacional’ carecendo da campanha
integralista, “todo o cuidado no Brasil é pouco com os discursos melosos e os planos
patrióticos aconselhados por técnicos estrangeiros, oferecidos por economistas marca
Simonsen, Whitaker ou Numa, defendidos por judeus fantasiados de representantes da
nação...” (Barroso 1937, 104). Em Barroso, liberalismo, socialismo, comunismo e maçonaria
não se separam, ainda que a ideologia de Marx represente o verdadeiro anticristo,
encabeçado por seres capazes de realizar tudo em nome do capital, seres diabólicos que
derrubam tudo a fim de estabelecer uma sociedade ateísta.
Só o integralismo combateria os inúmeros prejuízos causados pelas ‘criações judaicas’.
Conclamando a nação brasileira a lutar contra o verdadeiro ‘anticristo’, o ‘inimigo número
um do país’, era preciso fazer de tudo para acabar com as ‘forças do mal’ causadoras dos
problemas do Brasil e do mundo. O brasileiro era chamado a fazer parte das fileiras verdes
em razão do surgimento de um novo Brasil. Maior movimento após o cristianismo,
conforme Barroso, só perdendo para a abolição e para o advento da república, o
integralismo era como todos os movimentos totalitários, um movimento de ‘renovação
espiritual’, que exigia uma nova forma de pensar e de sentir, urgia um ‘novo homem,
indispensável para a formação do Estado forte brasileiro. Sob o ‘princípio de autoridade’,
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de respeito à disciplina e ao trabalho, o movimento integralista era o remédio para viabilizar
o novo Brasil. Este novo Brasil seria forte como o regime de Mussolini, de Hitler e de Salazar,
onde a nação estaria acima dos interesses regionais, impedindo as manifestações políticas
de esquerda (Bertonha 2001).
Vale lembrar o importante movimento de massas que foi o Integralismo e sua fecunda
produção jornalística (Cavallari 1999), mostrando a tensão do momento e acima de tudo, o
medo das elites brasileiras da chegada dos comunistas ao poder, após a eclosão da
Revolução soviética. Num país de tradição extremamente conservadora, se por um lado o
integralismo alimentou o autoritarismo e o racismo de nossas elites, por outro permitiu um
olhar mais atento desse importante momento histórico, de fecunda produção cultural.
Buscavam-se alternativas para um país marcado pela corrupção das elites regionais,
arrastados consigo pela mais recente Carta Constituição de 1891, que tanto socialmente
como politicamente não superou problemas tradicionais de sua formação, como por
exemplo, o autoritarismo dos grupos regionais, materializando suas ações no empastelando
jornais, na perseguição de opositores, na verdadeira política do cabresto e da enxada,
típica de nossas elites rurais.
Período de transição na história do país, recuperar o pensamento integralista de Gustavo
Barroso é ir muito além da concepção malévola sobre o judeu, esta é apenas parte de um
problema maior, que é o tortuoso caminho da brasilidade, que guarda em seu discurso a
malevolência da raça judia. Sua obra reverbera o pensamento da Igreja, responsável
pela construção do judeu como o ‘anti-cristo’, o ‘satanás’, ‘um ser de odor fétido’, ‘com
cornos e rabos’, ‘assassino de Cristo’, ‘maquinador de crianças’, ‘responsável por fomes e
pestes’, um ser com poderes diabólicos que precisava ser eliminado em nome da
cristandade ocidental.
Tempos de Integralismo: ideais ‘totalitárias’ ou autoritárias?
Como parte dessa turbulenta conjuntura política, o projeto integralista de Barroso passava
pela questão racial, um dos pilares de todos os projetos nacionais brasileiros ao longo de
nossa literatura histórica. Os problemas nacionais foram antes de tudo problemas de raça,
uma vez que o argumento racial sempre fora acionado para justificar nosso atraso e nessa
mesma lógica, acabava por formar um discurso laudatório, complexo e incoerente em
torno da formação da identidade nacional (Menezes, 2009). Era nos momentos de crise
política (leia-se como crise de identidade), que se buscava o Brasil e o brasileiro, e o
Integralismo antes de ser visto com um movimento ideológico foi um projeto que propôs um
modelo de nação (Oliveira 1990).
Em um período rico de nossa história, onde as tensões geraram diversas ‘visões de Brasil’ a
alternativa de um Estado forte’, baseados no lema ‘Deus, Pátria e Família’, respeitando o
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princípio de autoridade e a disciplina ganhou ruas e estados na cruzada contra o
‘Judaísmo Internacional’. Com o Manifesto de Outubro de 1932, de autoria de Plínio
Salgado, uma releitura que este faz do fascínio que nutria por Mussolini, estava pronto o
caminho para o Brasil se tornar uma nação forte. Todo esse cenário de inquietude política
trouxe a influência dos governos fortes para o Brasil, necessitando como pregava Barroso
um novo homem brasileiro. Antes de tudo, era indispensável uma ‘revolução interior’ para
subtrair o Brasil da escravidão ao ‘Judaísmo Internacional’, como anotava o integralista.
O Estado forte deu a tônica ao pensamento de Barroso, influenciado pela palavra de
Cristo, não cabendo outra interpretação a não ser seguir os passos de uma sociedade
ordenada politicamente pela mensagem de NSJC. A novidade de um Brasil integral se dar
no momento em que determinados grupos políticos precisam se ordenar para não
perderem seus espaços para setores urbanos envolvidos em atividades comerciais,
juntamente com profissionais liberais, médicos, professores, ex-tenentes, e imigrantes com
suas ideias socialistas, comunistas e anarquistas. Dentre esses imigrantes estava a figura do
judeu, sem tradição agrícola, que transitoriamente passava pelo trabalho no campo e logo
que adquiria algum dividendo se dirigia a cidade, competindo com setores mercantis, por
isso a hostilidade de alguns setores tradicionais. O judeu logo se transformou em um ser
indigesto, uma ‘raça indesejável’, o que explica a transfiguração do real e a
instrumentalização das ideias raciais datadas das três últimas décadas do século XIX
(Luizetto 1982).
Lembremos que a Constituição de 1934, conforme Milgram “estabeleceu pela primeira vez
normas e leis para regular a entrada de estrangeiros”, somado a admiração de Barroso
pela política do III Reich. A não pairar dúvidas sobre o racismo de Barroso, seu
antissemitismo incidia sobre o ‘judeu conspirador’, ‘símbolo do mal’, responsável pelo
comunismo em várias partes do mundo, pela decadência e destruição das sociedades
(Milgram 1994). Conforme Tucci Carneiro, “o discurso antissemita veiculado no Brasil entre
1930 e 1945 reunia atributos, que no seu conjunto, transformavam o judeu em um ser
parasita, indigesto” (Carneiro 2010, 233). Se por um lado, parte da historiografia ressalta o
movimento de 1930 como uma ‘Revolução burguesa’ (Fernandes 1977), ressaltamos que a
estrutura da sociedade brasileira no plano político continuou inalterada, setores tradicionais
e industriais, e novos atores políticos, como médicos e profissionais liberais, dialogaram
harmonicamente (Fausto 1972).
No momento em que o marxismo se mostrou uma viva alternativa política, é compreensível
a concepção extremamente estereotipada sobre a figura do judeu. Não poderia ser
diferente a concepção de um autor que concebe o judeu como ‘grupo de bandidos e
criminosos’, ‘raça deicida’, ‘fermentos’, ‘borras ou parasitas sociais’ que infestam o
organismo social destruindo as civilizações. Para Barroso o judeu era autor de atentados,
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participava de redes de espionagem, se envolvia no comércio de drogas, de armamentos
e no tráfico de mulheres.
Dispensando maiores cuidados quanto à identificação das teorias raciais consideradas
científicas assimiladas nas instituições brasileiras (faculdades de medicina, institutos
históricos, museus), é dado inconteste que nas décadas de 1920 e 1930 mais uma vez o
apelo racial se fez presente como estratégia política na formação do Estado nacional
brasileiro. Uma vez que o discurso nacional suplanta as particularidades, sendo um discurso
que interessa a poucos, o apelo racial sempre caiu como uma luva para as elites políticas e
econômicas, nublando as reais condições de um país formado sob o autoritarismo,
marcado por práticas bastante conhecidas, que ia das fraudes políticas até a perseguição
e morte do opositor.
Diga-se de passagem, o ‘racismo científico’ da geração de Sílvio Romero e Euclides da
Cunha prosseguiu sob a política higienista tão intolerante quanto o pensamento de homens
que advogavam a superioridade inata dos seres, reabilitada mais tarde na política de
corpos e mentes sãs para a nação sadia e forte, dos tempos duros do Estado Novo.
(Lenharo 1985; Bercito 1991; Chalhoub 1996; Sevcenko 1984; Carvalho 1996). A prática
política do Estado brasileiro da época de Barroso foi tão intolerante quanto o pensamento
de homens como Sílvio, que em seu tempo estavam presos a leituras racistas, consideradas
a época pressuposto científico, leituras que se tinha a época, como chama atenção
Antônio Candido (1945). Barroso não recorre a escritores racistas como Gobineau e
Lapouge, mas teve contato com uma conhecida literatura racista de antissemitas utilizados
pela política nazista, vindo a ter contatos com figuras proeminentes do III Reich.
Intérprete da cultura brasileira, o integralista pensará a clássica fusão das três raças num
país ‘sem ódio racial’, onde o europeu figura como elemento mais importante. Não havia
cenário mais adequado para a voz da direita quando do clima tenso e indefinido que viu
Vargas chegar ao poder. É sob o emaranhado dessa indefinição política que soa a
concepção de Barroso, escolhendo um culpado pela situação do Brasil, temendo
comunistas e vozes dissonantes que representavam o novo (Cruz 2011). O judeu é o novo, é
a força contrária ao proprietário de terra que vive da economia agrária, resistindo ao
trabalho forçado no campo e escolhendo a cidade para empreender seu negócio e tentar
sua vida, por isso incide sobre si o estereótipo de parasita e de revolucionário, dentre outros
caracteres. Este momento de nossa história foi extremamente conturbado que viu o
tabuleiro político se reordenar ante a incerteza de setores antes bem estabelecidos, agora
perderem sua estabilidade política, o que exige de nós a compreensão para o
pensamento fascista de Gustavo Barroso. Sua obra é marcada pelo choque entre as forças
de direita e de esquerda, onde o comunismo avulta como a grande ameaça, a
mensagem de Marx é o grande mal, por impedir e por abaixo todo projeto de Brasil
pensado pelas elites brasileiras da época.
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Um antissemita declarado
É tacitamente reconhecida pela historiografia integralista que Gustavo Barroso assumiu
uma postura antissemita. Ainda que o antissemitismo de Barroso no seio da AIB tenha sido
tema secundário, mera tática política para chegar à liderança do movimento na disputa
com Plínio Salgado, como aventa Hélgio Trindade (1974), a temática integralista, desde a
década de 1990 com o estudo de Maria L. Tucci Carneiro (1995), não parou de suscitar
trabalhos. Em meio aos olhares integralistas, o tema é passível de um debate pelas
diferentes posturas de seus integrantes, bem como pela leitura de seus interpretes. A partir
da problemática de Trindade proposta em sua tese, uma série de obras (hoje bastante
conhecidas para o pesquisador preocupado com assuntos ligados a movimentos de
direita), continua a inspirar trabalhos sobre o tema. Boas análises são as de Antonio
Candido (1978) e Florestan Fernandes (1979), no prefácio as obras de Chasin (1978) e
Gilberto Vasconcellos (1979), respectivamente. Obras que tocam na temática integralista
são as de Hélio Silva (1971), Edgar Carone (1973), Stanley Hilton (1977), Rene Gertz (1987),
Marilena Chauí (1978), Gilberto Vasconcelos (1979), Antônio Rago (1989), Lesser (1995),
dentre outros. Trabalhos mais atuais, mas clássicos são os de Alcir Lenharo (1986), Maria
Luiza Tucci Carneiro (1986), Renato Benzaquen de Araújo (1987). Lembremos o livro de Hélio
Silva (1971), onde o autor aborda historicamente o Integralismo, assim como o de Stanley
Hilton (1977), que busca compreender a estrutura sócio-política que deu condição para o
surgimento do integralismo.
Em artigo específico sobre a evolução dos estudos do integralismo lembremos a excelente
análise de Rodrigo Santos de Oliveira (2010), onde aborda as ‘gerações’ da historiografia
integralista, termo que o autor faz as devidas considerações, em nota de pé página. Outro
estudo que não pode ser esquecido é o primeiro volume de Estudos do Integralismo no
Brasil, organizada por Giselda Brito (2007). Diante dessa considerável bibliografia, podemos
afirmar que a figura de Gustavo Barroso merece destaque após o estudo de Trindade,
onde o citado autor aponta a postura abertamente antissemita de Barroso nas hostes
integralistas. Respeitando o trabalho de Trindade e de todos os outros que reabilitam a
temática integralista, trazendo a figura de Barroso no que tange ao seu antissemitismo,
lembremos alguns trabalhos surgidos após a averiguação no arquivo do Itamaraty do livro
de Tucci Carneiro, quando a historiadora identificou uma política oficial antissemita por
parte do estado brasileiro, impedindo a entrada de judeus no Brasil por meio da emissão de
circulares secretas. Destacamos também as importantes contribuições de Marcos Shor
(1992), Eduardo Calaça (1992), Roney Cytrynowicz (1992), Natália Reis (2004), Carlos
Augusto Nóbrega de Jesus (2006), Márcia Regina (2007), Ivair Ribeiro (2007), Rodrigo Santos
de Oliveira (2009) e minha pesquisa de pós-doutorado desenvolvida junto a Universidade
de São Paulo (2017).
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Para boa parte da historiografia, o antissemitismo de Barroso não possui ligação racial, é
moral (argumentação do próprio Barroso), incidindo sobre o ‘espírito’ judeu, ‘ganancioso’,
‘usurpador’, e acima de tudo ‘inassimilável’; para outros, o chefe dos camisas verdes
combatia a raça judia, propondo até a eliminação desta, como pensa Marcos Shor, Roney
Cytrynowicz, Carlos Nóbrega de Jesus, Tucci Carneiro, Márcia Carneiro e Natália Reis. Para
que não paire dúvidas sobre a natureza antissemita de Barroso (um projeto nazista de
eliminação), sua postura é muito clara, em decorrência da imagem e das denominações
que o escritor cearense referia-se aos judeus.
(...) afirmar que a proposta barrosiana não tinha conteúdo racial, mas apenas
ideológico e político seria negar tudo o que o próprio Gustavo Barroso afirmou nas
linhas de sua obra O Quarto Império, que foi inclusive, extensamente analisado
por Maio, em seu trabalho. Nela estão presentes as linhas mestras de uma teoria
das raças, de uma visão da História como determinada pelas características
raciais dos arianos e dos semitas, consubstanciada na idéia de luta entre essas
duas raças e seus valores. Ocorre que Barroso utiliza um arsenal moralista e
religioso a sua proposta de branqueamento e predomínio da raça branca, tanto
em termos culturais como raciais (Cruz 2004, 219-20).
Adentrando ao pensamento de Barroso, vemos a presença de uma Teoria das Raças, um
dos argumentos de Marcos Shor, a crença de um autor preso ao pensamento
evolucionista, convicto na superioridade do homem branco, em detrimento de ‘raças
inferiores’, como por exemplo, o semita, advindo daí as agressões e denominações ao
judeu como ‘bando de criminosos’, ‘bactérias’, ‘cupins’, ‘fungos’, ‘parasita’ etc. Até
mesmo em seus trabalhos de memória vimos soar o racismo de Barroso sobre o judeu.
Carlos Nóbrega de Jesus traz questões que achamos importantes, como: o fato de ter sido
Barroso o segundo nome do Integralismo, tendo este movimento particularidades fascistas,
com traços peculiares brasileiros, não o levou a tomar o ideário antissemita como
estratégia política? O discurso integralista não exacerbou a visão antissemita de Barroso,
em contraposição a autores que em tese não combatiam os judeus ‘abertamente’, como
Plínio Salgado e Reale, pois tais líderes sabiam que discriminar racialmente o judeu jamais
seria aceito na sociedade brasileira conservadora e católica? (Nóbrega 2006)
Não iremos encontrar nomes famosos do racismo científico o nome de Gobineau
aparece raramente na produção integralista de Barroso -, para legitimar a desigualdade
dos seres, na obra de Gustavo Barroso. Presenciaremos no momento da produção
integralista de Barroso a criação de seres que impediam a construção de um Brasil
expurgado dos males do passado, seres ou uma raça de ‘indesejáveis’, discurso de boa
parte dos intelectuais e homens públicos. Em meio à construção da brasilidade, da
identidade nacional, da formação do Brasil e do brasileiro, criou-se o desviante, dentre
estes, imigrantes judeus que eram inclinados à desordem e perigosos (Carneiro 2001).
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930; Revista nuestrAmérica; ISSN 0719-3092;
Vol. 7; núm. 14; julio-diciembre 2019──
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A historiografia por nós analisada contextualiza a figura de Gustavo Barroso e sua visão
antissemita. Tucci Carneiro (1995) aponta uma política oficial antissemita por parte do
Estado brasileiro, em contraposição à visão de Lesser, que afirma que justamente no
período abordado pela historiadora não houve diminuição na entrada de judeus no Brasil,
em meio as circulares secretas. Os dois autores apontam o período de forte nacionalismo
da época como crucial para a simpatia da elite brasileira, conservadora e racista, com o
integralismo, em que surge a postura antissemita de Barroso. A ‘Questão Judaica’, por
exemplo, surge na década de 1920 não por acidente, aliás, o preconceito de nossas elites
e do estado nacional é traço inerente à formação do Brasil independente, desde o
surgimento das discussões políticas e literárias acontecidas no IHGB. O judeu colocaria em
risco ou até mesmo suplantaria tradicionais setores, estabelecendo um mundo novo
(desconhecido), colocando em xeque a posição social de tais setores. Como na Europa,
no Brasil, setores conservadores (Igreja, médicos, funcionários públicos), parcela significativa
de homens que ocupavam cargos importantes no Estado, assimilaram o ideário
nacionalista criado pela extrema-direita.
Boa parte da bibliografia que se volta ao antissemitismo de Barroso não ver racismo nesse
tópico por parte do integralista. Tomamos o estudo de Natália Reis, que traça um
verdadeiro projeto de eliminação dos judeus, o qual concordamos após leitura da
produção bibliográfica de Barroso. O temor comunista (Motta 2002) que abalou e pôs
medo às elites conservadoras brasileiras, orquestrada pelo ‘judaísmo internacional’, com a
expulsão de judeus para várias partes do mundo, somada ao imaginário negativo do judeu
ao longo da história, só contribuiu para aumentar o discurso intolerante das elites brasileiras,
tornando o judeu bode expiatório da história, algo a ser combatido. Barroso fez uma
verdadeira campanha antissemita, conclamando a mocidade brasileira a não medir
esforços em benefício do Brasil integral.
A historiografia aborda o panorama mundial da época com suas vertentes ideológicas e as
tensões do momento buscando compreender o surgimento de ideologias nacionalistas,
dentre as quais, o fascismo e o nazismo. Com relação ao Brasil, entender o contexto de tais
regimes nacionalistas não justifica ou serve como argumento para o antissemitismo de
Barroso, pois sabemos que nem Plínio Salgado nem Miguel Reale foram racistas. Embora
não se detenha ao tema, Trindade já enquadra Barroso como adepto de uma postura
antissemita radical, contribuindo para o surgimento de trabalhos posteriormente. Ainda que
o autor negue que seu antissemitismo tenha raízes raciais, encontramos falas tipicamente
racistas. Algumas denominações como ‘verme’, ‘lama humana’, ‘bactéria’, ‘micróbios’,
‘carrapatos’, configuram uma verdadeira ‘profilaxia social’ (Carneiro 1990).
Nessa ótica, é compreensível que o autor de Judaísmo, Maçonaria e Comunismo esteja
sempre pensando na ideia de conspiração, no domínio mundial orquestrado pelos judeus,
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930; Revista nuestrAmérica; ISSN 0719-3092;
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farsa literária tão bem analisada por Cohn (1969). A influência do ‘Judaísmo Internacional’
era tanta que dominava algumas organizações secretas (a mais importante era a
maçonaria), o comunismo e o liberalismo. Tudo que está ligado ao judeu é alvo dos
ataques de Barroso, por exemplo, o bolchevismo russo só acobertava o interesse mercantil
e o comunismo foi senão reflexo da democracia liberal empreendida pelo judeu, por isso
era preciso combater o ideal ‘moscovita’.
A nosso ver Barroso se mostra um pensador extremamente racista. Ao longo de seus livros o
escritor se justifica falando que seu antissemitismo não possui ligação racial, mas em seus
textos o que se vê do começo ao fim é a perseguição e os ataques a um ser que
perambula ou erra pelo mundo, sem amor a pátria, tirando proveito da luta de classes e
buscando fazer a revolução na terra dos outros. O antissemitismo de Barroso é racial, o
autor quando fala de um antissemitismo moral ou religioso, logo destila seu ódio justamente
em função dessas implicações morais ou religiosas. A ideia de parasita e de raça que não
se mistura é muito antiga, o antissemitismo reinante na Europa criado pela Igreja foi
reelaborado no século XVIII, em um quadro cheio de tensões que bem serviu á política
destrutiva de Hitler.
Barroso é um intelectual antissemita convicto na malevolência do judeu, não sem razão
que diversas vezes em sua obra tratou de justificar sua hostilidade ao povo de Israel. Se o
antissemitismo foi tema secundário no projeto da AIB, tendo conquistado milhares de
adeptos devido a seu ‘simplismo de pensamento’, ou até mesmo utilizado pelo escritor
cearense como tática política para rivalizar com Plínio Salgado, segundo Trindade,
concordamos com Cytrynowicz (1992) quando afirma que o antissemitismo é o eixo central
da produção de Gustavo Barroso.
Uma corrente historiográfica sobre a gênese antissemita de Gustavo Barroso é
representada por Tucci Carneiro, que aproxima Barroso do Nazismo, sem ver nele um
‘racista’. Para Carneiro, o racismo de Barroso é um ‘racismo político’. É problemático
entender o que uma autora do porte de Carneiro concebe por ‘racismo político’,
preferimos a ideia de se tratar de um escritor racista motivado por questões políticas, forte
argumento quando se trata de identificar a camada social de camisa verde. A historiadora
identificou todo um discurso de intolerância e de preconceito do Estado brasileiro às
populações judias quando analisou as circulares secretas manipuladas pela Elite Rio
Branco. Lembremos que a constituição de 1934, conforme Milgram “estabeleceu pela
primeira vez normas e leis para regular a entrada de estrangeiros”, somada a toda a
admiração do escritor cearense pela política do III Reich. A considerarmos o ‘racismo
politico’ de Barroso, seu antissemitismo incidia sobre o judeu conspirador, símbolo do mal,
desprovido do apelo racial (Lesser 1995). Conforme Tucci Carneiro o Estado brasileiro ficou
em silêncio frente o descaso das populações judias, não bastasse o massacre nos campos
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930; Revista nuestrAmérica; ISSN 0719-3092;
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de concentração nazista, ‘sob as máscaras do nacionalismo’ o Estado encobriu a brutal
política de hostilidade aos judeus (Carneiro 2001).
O clássico trabalho de Anita Novinsky aborda historicamente a situação dos cristão-novos,
mostrando restrições de mobilidade social a estes, quando se sabe que mesmo no
momento da Inquisição em Portugal existiu um ‘Código sobre Pureza da Raça’, tema que
Carneiro em livro específico tratou de abordar. Notemos que ainda que este seja o
‘antissemitismo tradicional’, presencia-se claramente a existência um elemento racial, que
é a ideia de pureza de raça! (Novinsky 1992).
Carneiro reconhece em Barroso um antissemita de ‘corte moderno’, mais próximo ao
Nazismo do que simpatizante de um antissemitismo de traço clássico religioso. Para
sustentar sua tese acerca do escritor cearense, arrola a influência de autores racistas como
Bertrand, Léon Bloy, Edouard Drumont, Bernard Lazare e Leon de Poncis. É de se perguntar
se diante a influência de tais escritores racistas, Carneiro concebe o antissemitismo de
Barroso como sendo um ‘racismo político’.
Carlos Nóbrega de Jesus defende o posicionamento radical de Barroso, em contraposição
às posições de Plínio Salgado e Miguel Reale. De outro modo, não apenas Barroso aderiu
ao antissemitismo, como os demais líderes do Integralismo o fizeram, a diferença era que o
líder cearense defendia abertamente seu antissemitismo, ao passo que Salgado e Reale
diluíram a hostilidade ao judeu ora combatendo o comunismo, ora ao capitalismo.
Discussões políticas acerca de pontos essenciais do Integralismo, no que pese as
divergências teóricas não escondiam o antissemitismo de Barroso, de Plínio e de Reale.
Para Nóbrega, “da mesma forma que Barroso, o chefe do Sigma e Miguel Reale
encobriram seu antissemitismo na suposta luta contra o domínio do capitalismo estrangeiro,
em nome da defesa da nacionalidade” (Jesus 2006, 117). Ainda com Nóbrega, o judeu, na
visão de Barroso, era simbólico, tese tomada de empréstimo de Lesser, espalhando seu
ódio às ideologias a ele associadas como o Iluminismo, Comunismo, Capitalismo e
Protestantismo. Nóbrega conclui que: “é importante salientar que o aparente nacionalismo
do título e dos conteúdos das obras do autor é subproduto do antissemitismo explícito,
fundamentado em concepções difamatórias e discriminatórias, que revelam o caráter
racista do autor (Jesus 2006, 117).
Outra corrente historiográfica que caracteriza a natureza antissemita de Barroso destituído
de racismo traz nomes como os de Antônio Rago (1989), que em âmbito maior tece fortes
críticas ao trabalhado de Hélgio Trindade (1977), no que tange a assimilação do ideário
fascista no seio do integralismo, apoiando-se no livro clássico de José Chasin (1978). Para o
autor, a posição de Barroso não tinha ligação racial, estava ligada a aspectos morais, uma
vez que o judeu era retratado como eterno conspirador, açambarcador, parasita e
ganancioso, dificultando assim, a formação da cultura brasileira. Dessa forma, a hostilidade
de Gustavo Barroso não era sintoma do Nazismo, pois o escritor não defendia o
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Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930; Revista nuestrAmérica; ISSN 0719-3092;
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confinamento dos judeus em guetos, seu plano seria mais amplo e profundo, começaria
por meio de uma revolução espiritual, conforme pregava o Manifesto Integralista. As
crenças católicas de Barroso, seu caráter forte e o apego às tradições justificariam assim
seu antissemitismo.
Barroso é um divulgador da eficiência política dos regimes fortes, que rechaça a
participação do povo na formação do novo Estado brasileiro, pelas vias do liberalismo
democrático, sentido de sua crítica à figura do judeu. Mas, a linguagem do escritor
cearense não deixa dúvidas de seu racismo, utilizando termos nazistas como ‘vermes’,
‘bactérias’, ‘micróbios’, ‘parasitas’, ‘cupins”, ‘camarilha de ladrões’, termos que atestam
claramente seu projeto de eliminação de um povo ou de uma raça que precisava ser
eliminado para ser possível a formação de um novo Brasil, semelhante ao discurso racial do
III Reich.
Liberalismo
Um dos pontos marcantes na obra integralista de Gustavo Barroso é o combate que o
escritor faz sobre o liberalismo. Para este o liberalismo político e econômico é uma criação
judaica, reflexo do pensamento materialista que tem suas origens desde os filósofos pré-
socráticos. Ainda que este irrompa com toda a força após a Revolução Francesa, o
liberalismo está ligado à figura do judeu parasitário, homem ganancioso, sem pátria,
desde remota época.
Traços presentes na modernidade, como por exemplo, a sede pelo lucro fazendo com o
que o judeu não medisse esforços em busca do capital, a ganância de um ser apátrida
que erra pelo mundo compõe o complexo imaginário compartilhado por Barroso e outros
integralistas. É fora da história, ainda que particularidades ou inclinações do judeu se
manifestem nesta que se encontra o judeu avistado por Barroso, um judeu segundo Lesser
(1995) visto pelas elites europeias, reproduzido pelos setores de direita do Brasil. Trata-se de
uma visão mítica, pois nem todo o judeu é rico, essa é apenas uma das várias
generalizações de Barroso, que quando muito retrata a realidade de um pequeno número
de pessoas (Cytrynowicz 1992).
O judeu analisado por Barroso é o banqueiro, investidor, homem ligado aos mais variados
segmentos comerciais, indo desde a venda de armamentos até as redes de prostituição de
mulher como a conhecida Zwi Migdals. Para Barroso o liberalismo nasceu da decadência
do mundo hierárquico, colocando em xeque a ordem social harmônica regida sob o trono
e o altar, permitindo o aparecimento dos instintos e a engorda do capital.
Dividido pela separação dos três poderes, alicerçado na soberania que dava liberdade ao
homem ao mesmo tempo em que tirava o poder natural do Chefe de Estado, o sufrágio
universal representa para Barroso a ‘anarquia do número’. O liberalismo é o grande inimigo
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
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do Estado, responsável por todos os elementos componentes da decadência social, como
o socialismo, o comunismo e o anarquismo. Defensor de um verdadeiro Estado Social
Cristão, sufrágio universal para Barroso significa irracionalidade, porque abre o processo
político a turba ou massa de ignorantes que já Guizot chamava atenção.
Responsável por uma série de prejuízos, o liberalismo (leia-se aqui ideias liberais) esteve
presente desde a traição de Judas até a materialização de suas ideias, na Revolução
Francesa. Após 1830 o mundo entrou em decadência pela reivindicação socialista, em
razão da primazia da matéria sobre o espírito, representando uma crise geral, destruindo
as bases morais, que segundo Barroso explicava a emergência das ideias liberais, como
também a ruína do mundo perfeito da sociedade medieval, possibilitando “uma crise em
cada consciência e uma miséria moral em cada alma” (Barroso 1934, 12). Presente no
Renascimento e na Reforma Protestante, liberalismo em Barroso é algo genérico, é antes de
tudo um pensamento que tem por base a matéria e não o espírito, razão para o combate
do escritor ao marxismo, a maçonaria e ao comunismo, a todo e qualquer movimento que
vai de encontro a sua lógica ordenada harmonicamente, que tem como arcabouço a
palavra de Deus.
Barroso é defensor de um Estado (Estado Social Cristão, Democracia Crista, Democracia
Orgânica, algumas denominações utilizadas pelo integralista) onde o poder é dado por
natureza, não existem homens capazes de atingirem as teias do Estado totalitário’(o Estado
perfeito), senão intelectuais, uma meia dúzia de pessoas que detém o conhecimento e
podem governar. Dessa forma, sufrágio universalpara o camisa verde significa anarquia
do número’, trata-se apenas como salienta Barroso remetendo a Faguet do surgimento de
uma era da mediocridade que produziu dois grandes vícios: o culto da incompetência e o
horror das responsabilidades. Todo esse estado de coisas foi golpeado por homens do
século XVIII, que após 1830 viram a ruína total dos tempos que Barroso tanto falava, no
caso, os idos medievais. Em crise, alguns pensadores criticaram o Estado absoluto, que não
considerava a opinião do povo, pois poucos votavam (tome-se, por exemplo, o
pensamento de Rousseau e Hobbes), presenciou-se “uma crise em cada consciência e
uma miséria moral em cada alma” (Barroso 1934, 12) acordando de um lado as
reivindicações socialistas diante do radicalismo anticlerical e do comunismo; e de outro,
“fazendo as mais covardes concessões” (Barroso 1934, 12).
Foi nessa estrutura sociopolítica que segundo Plekhanov, (um dos leitores de Marx), emergiu
o marxismo, para Barroso ‘o filho rebelde ou mal criado da burguesia’. Com princípios
políticos contrários à estrutura hierárquica da sociedade medieval é que surgiu “a
inundação sangrenta e lamacenta da democracia liberal afim de tudo açambarcar e
fazer pastar os dóceis rebanhos dos povos embrutecidos sob o cajado de ferro do Messias
materialista” (Barroso 1934, 15). Aqui reside o cerne que originará todas as mazelas ou
prejuízos ao Estado moderno, onde se verá predominar o individualismo dissolvente, a
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
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ganância e a redução do homem à mercadoria, causados pela liberal democracia. Preso
a um Estado Totalitário-ideal em que todos os elementos constituintes desse todo
funcionam de maneira harmônica, Barroso disserta sobre a origem real da sociedade e do
Estado. Em sua ótica o liberalismo foi responsável por uma nova ordem, o racionalismo do
século XVIII que derrubou o Antigo Regime andou sempre de mãos juntas aos interesses do
judaísmo. Aliás, Barroso fala diretamente em racionalismo e filosofia de judeus, um
complexo movimento de ideias datado desde a queda de Roma, afirmava que tais ideias
eram vozes das forças secretas.
A vida espiritual de outrora vinha sendo minada por esse racionalismo que do século X ao
XV tirou inspiração de uma glosa do tratado Baba-mezia do Talmud, caracterizando o neo-
messianismo, que dizia: “a razão não está mais oculta no céu”. A naturalidade do poder
não estava mais no plano superior a dos homens, sendo incontestável, era agora pensada
e questionada sobre a melhor forma de governo rodeada pela cara ideia de soberania.
Aqui um novo mundo se apresentava, quebrou-se a unidade da sociedade harmônica de
outrora, nem a monarquia absoluta de Bodin se aproxima ao mundo de Barroso. Só o
regime fundado pela ideia espiritual a partir de NSJC que tem o Chefe como
personificação deste é capaz de promover a Justiça Social e o bem maior de toda a
sociedade, trazendo o advento da verdadeira democracia. Tudo que vai de encontro à
sociedade onde Deus rege o destino dos Povos é tenazmente combatido por Barroso. Por
isso é que o naturalismo apareceu na mente de homens como Rousseau, que para o
escritor confundia o conceito de Estado com o conceito de Sociedade. Responsável por
esse naturalismo foi que o Renascimento produziu o Realismo, originando o racionalismo,
“pai consciente do individualismo”.
Tais formas de pensamento ou visões de mundo são fortemente combatidas por Barroso,
pois derrubam a infalibilidade de todo um quadro social e político regido pelo ‘sagrado’,
algo incontestável, pois a certeza é assegurada pela ordem natural das coisas, tornando
dispensável qualquer tipo de contestação à mensagem autoritária. Contrário ao modelo
de sociedade já dividida por natureza, o marxismo (representação das forças judaicas), é
fortemente combatido. Trata-se de um pensamento caduco, que ia mal das pernas, que
bebia de empréstimo a ciência burguesa, algo contraditório para o integralista, como era
uma falsa ciência, porque priorizava o material em detrimento do espiritual. Para Barroso
não existe um direito natural racionalista, uma vez que o poder é natural, isso explica sua
crítica a qualquer contestação ao seu modelo de Estado Cristão. Eis a razão de suas
críticas a pensamentos que indicam modelos de Estado baseados na análise, como o
Positivismo, o Marxismo ou organicismo de Spencer, pois “todos esses sistemas se esteiam
numa fé absoluta da razão humana(Barroso 1934, 16).
Aqui se toca no ponto nodal da concepção política do Estado proposto pelo integralista,
que é o tema da soberania, onde resplandece uma particularidade fascista. Escrevia
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
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Barroso que o liberalismo com sua filosofia racionalista ‘estragava’ a política bem antes
da Revolução Francesa, explorando as oposições do povo a fim de galgar posições.
Citando Broglie, pomposamente denominando este de liberal se viu a destruição do antigo
quadro social. Barroso levanta uma complexa discussão sobre a legitimidade do poder,
remetendo ao Direito romano em defesa de um Estado Totalitário, combatendo a
soberania popular, e assim o direito de voto, seja este público ou privado. Anotava que
desde Cícero se discutia a natureza do voto, “pelo sufrágio universal e pelo direito de greve
o vírus comunista penetrou na sociedade liberal-democrática burguesa, que nada produziu
de realmente grande ou forte”, (Barroso 1934, 19) e mais: a Bíblia sabiamente
aconselhava a não entregar a turba o julgamento dos feitos e a jamais inclinar a balança
ao peso do número(Barroso 1934, 18).
Citando as propostas de Montesquieu, Macaulay, Cromwell e Ernest Jones, Barroso alertava
para o risco da anarquia de uma sociedade que tivesse por princípio político a soberania,
pois o resultado seria o caos. A anarquia do número com a turba participando do
processo político levaria ao ‘amoralismo político’, dentre tantas outras posturas amorais que
impediam a formação de um Brasil forte. Sem doutrina moral, sem plano geral de
produção, sem ideal superior, estaria morta a disciplina, suscitando o “espaventoso
crescimento do argentarismo sem pátria e sem coração” (Barroso 1934, 20). O liberalismo
falhou como forma de Justiça Social, a liberal democracia havia permitido a análise,
propiciando o individualismo e a escravização do homem, colocando o mundo em
decadência. Toda a sociedade humana sentiu a falta da universalidade moral, o que
justificava o terrível quadro da exploração do homem pelo homem e tantos outros males,
associados diretamente ao liberalismo. A conjuntura mundial no plano econômico, social,
cultural e religioso, foi marcada pelos males do liberalismo, que afastou o espírito e assim
eliminou o “supremo princípio moral das sociedades”, levando ao individualismo e todas as
mazelas provocadas pelo olhar maquiavélico de um mundo regido pelo capital, donde a
escravização do homem pelo homem’ e o desconhecimento de si mesmo, afora tantos
prejuízos.
As garantias materiais ou morais que o liberalismo oferecia eram precárias, fosse em
decorrência do voto público ou secreto. Defensor de uma sociedade rigidamente dividida,
somente possível com o auxílio da Moral, esta transmitida pela Igreja, para Barroso o
‘supremo princípio moral das sociedades’ era incompatível com a ideia de individualismo,
traço marcante do liberalismo. Neste panorama caótico é que surge a alternativa
socialista, mero parente (irmão gêmeo) do liberalismo, se apresentando como biombo
constitucional e permite a ação destruidora contra as poucas paredes sociais que ainda
subsistem(Barroso 1934, 18).
Tácito inimigo dos regimes de esquerda, o liberalismo destruiu o modo de vida medieval,
socialmente harmônico, onde cada classe ocupava seu espaço na ordem natural,
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
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constituindo um verdadeiro Estado Social Cristão. Uma série de acontecimentos tinha
ligação com o liberalismo e até mesmo Marx (reproduzido por Barroso) quando Emile
Ollivier decretou o Império liberal, frente ao posicionamento de seu agente Tolain, escrevia
a Engels afirmando o seguinte: o cavalo de pau entrou em Tróia (Barroso 1934, 19). Uma
boa passagem sobre os prejuízos do liberalismo é a que se segue
Porque todas as formas criadoras e criadas que não soube unir, manter e
canalizar, lhe escaparam das mãos imbeles e viu, egoisticamente frio, a máquina
dominar o homem, sem dar um passo para que o homem dominasse a máquina.
Porque consentiu que a Matéria marchasse orgulhosa e violenta contra o Espírito,
preocupado tão somente em cobrar o imposto, fazer a polícia e gerir mal a
administração. Porque entendeu que os problemas nacionais se resolvem por
meio de combinação de ministérios, de alianças de partidos e de conchavos de
chefes políticos. Porque foi incapaz de encarar firmemente estes problemas e de
firmemente resolvê-los, deixando que, com o tempo, se tornassem insolúveis.
Porque viveu continuamente de polêmicas, de sucessões governamentais e de
crises, dando à imprensa uma liberdade degenerada em licença anárquica e
anarquizadora, desorientando os espíritos, mercadejando as opiniões, pondo a
honra e a reputação dos homens de bem ao alcance das injúrias de qualquer
foliculário barato, e prostituindo no balcão os mais sagrados interesses da pátria.
Porque, pregando o anti-clericalismo, traficou sempre com o clero e, negando a
religião, fingiu hipocritamente respeitá-la. Porque somente produziu gozadores
desonestos, e descontentes, e desfibrados, e desiludidos. Porque chegou a tal
ponto de descrédito que, no seu seio, só o socialismo acabou sendo um ideal,
tanto que d’Annunzio, jovem e deputado, o escolhia por preferir a vida à morte.
Porque, enfim, revelou sua falta absoluta de ordem e gênio na solução de
quaisquer questões políticas, econômicas e internacionais, atirando o mundo a
fogueira da conflagração, repetindo em Versalhes os erros crassos do tratado da
Vestfália, não sabendo liquidar os salvados desse formidável incêndio e
produzindo somente miséria e inquietação (Barroso 1934, 20-1).
Diante dessa ordem de coisas, o liberalismo provocou um verdadeiro caos político e social,
introduzindo nas pessoas o ceticismo, o desdém e a amargura, premiando os ineptos e
perseguindo os homens preparados. Como anota Barroso, o liberalismo acabou sendo um
regime que sobreviveu alimentado por ‘balões de oxigênio’, numa sociedade apodrecida
até a medula, em que todas as crenças e todas as opiniões pareciam ridículas, onde
“todos se entendiam após haverem tudo gozado e onde muitos prestam ouvidos as sereias
anarquistas ou comunistas” (Barroso 1934, 22). O mundo havia entrado em decadência.
Escritores, mulheres doidivanas, professores e magistrados sinalizavam essa decadência
produzida pelo individualismo, que desconsiderou o ideal maior da nação. É nesse cenário
que surge a mensagem comunista como alternativa política para resolver a Questão Social,
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
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porque “o liberalismo por toda a parte entrou em agonia, falhou como forma de Justiça
Social” (Barroso 1934, 23). O caminho ao marxismo estava aberto e a mensagem
conclamando os operários surgia como a grande alternativa política!
Barroso é um pensador avesso à participação dos homens no processo político por
acreditar que o melhor regime político se dar a partir da mensagem ‘divina’ de Tomás de
Aquino, que traz uma seleta ‘elite de eleitos’ na configuração da sociedade e da melhor
forma de representação política. Como o exército, que estar à frente do Estado,
resguardando-lhe contra possíveis ataques, a Igreja possui a credibilidade por ser ter em
quadro homens capacitados, intelectuais, na formação do Estado totalitário, a imagem e
semelhança da Cidade de Deus. É com a liberal democracia que Barroso pontua a
infinidade de prejuízos causados no Brasil e no mundo, acreditando que esta seja a
manifestação de uma ‘filosofia do mal’ manietada pela figura do judeu, que quebrava os
lineamentos sociais do mundo harmônico dos idos medievais.
Tamanho eram os prejuízos liberais que levava o escritor a afirmar que “a democracia
liberal criou por falta duma doutrina de conjunto um caos político e social, injetou nas
almas o desdém, o ceticismo e a amargura, e premiou todos os ineptos e flexíveis,
desprezando, se não perseguindo, os altivos e preparados” (Barroso 1934, 22). Em todos os
seus trabalhos o integralista trata de apontar o liberalismo como causa central dos males
mundiais, uma vez ser este criação judaica. O racionalismo dos enciclopedistas, a
ideologia liberal presente na Revolução Francesa, somado aos movimentos de 1830, 1848 e
1917, são para o autor a continuidade de um complexo movimento ligado à figura do
judeu, um ser sem amor à pátria, apto a trair as nações, com o objetivo de destruir as
sociedades cristãs e sua paz social, “a coisa mais engraçada deste mundo é o judeu
fingindo-se nacionalista, patriota, não solidário do seu nomadismo ratoneiro, fazendo como
os ciganos andejos, que não se misturam com ninguém, porém não se metem a sebo na
casa alheia (Barroso 1937, 77-8).
O combate de Barroso ao liberalismo político se dar porque segundo o escritor este não traz
a verdadeira democracia, aquela que não escraviza o homem, permitindo assim,
condições de uma vida digna. Era urgente no cenário apontado pelo escritor, momento de
agudas contradições das forças do capital, solucionar a Questão Social. Prosseguia
Barroso afirmando que o liberalismo atuante em sua frente política e econômica não
resolveu o maior problema do Brasil e da humanidade, que era a questão da sobrevivência
humana, que tronou o homem mero número, uma vez inserido na lógica reprodutiva do
capital. Os problemas acarretados pela evolução do processo técnico trouxeram a miséria
e a total desassistência por parte de um Estado que permitiu a equidade política,
capacitando o povo de participar das decisões políticas. Mas, a democracia pelas vias
liberais era uma falsa democracia, refém de determinados grupos que buscavam
simplesmente seus interesses acima dos interesses nacionais. Prosseguia o camisa verde
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930; Revista nuestrAmérica; ISSN 0719-3092;
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afirmando que a cidadania chegava para poucos, a grande massa arregimentada no
discurso pela soberania nacional conforme os princípios outorgados pela Revolução
Francesa favoreceu os interesses de pequenos grupos que se utilizou do Estado, mantendo
as condições de existência e de trabalho da população inalteradas. Com um estratégico e
perverso discurso de ‘equidade política’ que em tese democratizava tanto politicamente
como economicamente o povo, a garantia do voto e a não intervenção do Estado na
economia não solucionou a ‘Questão Social’. Os ideais de liberdade e igualdade
trouxeram a democracia política, mas não a democracia social, a mais importante
questão de cidadania. Liberdade e igualdade significam para Gustavo Barroso argumentos
ou falácias para o domínio de pequenos grupos. A seu ver o povo não conseguia ter
cidadania porque a liberdade apregoada pelo liberalismo vetava as condições de acesso
a esta, o que era paradoxal. Seguindo o escritor a verdadeira democracia seria aquela
que permitisse a população melhores condições de vida num momento onde esta não
possuía as mínimas condições de sobrevivência.
A democracia aspirada por Barroso somente é possível a partir de seu modelo de Estado
Social Cristão. Barroso pontua veementemente a democracia liberal sendo um regime que
contou com a participação de todos na formação do Estado, mas poucos eram os
verdadeiros atores políticos. O direito ao voto e a garantia da propriedade privada em um
regime liberal trouxe as mais perversas desigualdades sociais, daí sua defesa por uma
democracia autoritária, elaborada pelo projeto político integralista que tem a estrutura
social dividida não em partidos, mas em corporações: “a mocidade integralista está
imbuída da ideia de que todos os males, como aliás, os do mundo, são provenientes do
liberalismo. Justamente por isso é que os integralistas querem implantar a democracia, a
verdadeira, a democracia orgânica corporativa e cristã (Barroso 1937, 175).
Para o integralista a verdadeira democracia que traz ao homem a segurança mínima
para sua sobrevivência baseia-se numa democracia orgânica (totalitária e não
autoritária), em que a figura do líder embute aquilo que é necessário para a liberdade
humana, pois o sujeito cria o Estado e nele se amolda a partir de sua capacidade
individual. Num período tenso da política brasileira, ecoava novamente no Estado brasileiro
o ‘pensamento autoritário’ (veja, por exemplo, o pensamento de Oliveira Viana e Alberto
Torres, dentre outros), que tempos depois seria recuperado pela pena de Gustavo Barroso.
Assimilado pela direita conservadora brasileira a partir de figuras como Alberto Torres,
Azevedo Amaral, Miguel Reale, Francisco Campos, Afonso Arino, dentre outros, a
supervalorização do Estado frente à Sociedade facultou a interpretação de uma ‘teoria
das elites’ que defendia uma forma de governo autoritário, com particularidades fascistas,
no que pese a singularidade do integralismo. Como vemos em seus textos, Barroso se
deparou com os males do liberalismo brasileiro que após a Carta Constitucional de 1891
não resolveu o problema da Justiça Social,
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930; Revista nuestrAmérica; ISSN 0719-3092;
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A República tem vivido eternamente nas ditaduras dos estados de sítio ou de
guerra. A Constituição que todos invocam com os olhos em alvo, como nume
tutelar, é um fardo incomodo que a República traz encafuado no sótão. No dia
em que a puser em estado de funcionar, o Brasil estará perdido” (Barroso 1937,
71).
A visão de democracia do escritor cearense é incompatível com a democracia oferecida
pelo liberalismo, responsável pela pobreza e pela fome, afora tantos outros elementos.
Dessa forma, para o integralista a democracia liberal é a principal responsável pelos males
do Brasil e do mundo. Uma das razões desses males é a falsa liberdade política, que traz a
equidade política, ocasionando justamente o triste quadro de miséria social. Somente
destruindo a liberal democracia é possível um mundo melhor, sem a exploração das
classes, do homem pelo homem. Contra a ganância, traço inevitável da força do
capital, o sentimento e alteridade substituiriam o individualismo e o discurso coletivo dos
seguidores de Marx, que acabou falhando como Justiça Social. Lembremos que o
contexto histórico criticado pelo autor, o período republicano em seu primeiro momento
(1891-1894) e todo o período da República Velha não ofereceu à população brasileira as
mínimas condições de sobrevivência. Acessível a poucos, o Estado brasileiro sempre esteve
nas mãos de pequenos grupos, garantindo cada vez mais seus poderes, tornando mais
difícil as condições de vida da população em geral.
Tudo que emana da liberal democracia é tenazmente combatido por Barroso, pois gera
pobreza, miséria, corrupção, individualismo, que o autor associa as forças secretas,
‘criação judaica’. Na liberal democracia o homem paradoxalmente experimentou a
miséria em uma estrutura social de diversas classes, acreditando em sua cidadania e na
garantia de sua propriedade privada. Era a falsa democracia que Barroso combatia
surgida com os ares liberais da Revolução Francesa. O que dizer dessa democracia
responsável pela miséria social em um mundo onde o Capitalismo Internacional se
tornava cada vez mais forte? Que dizer da história do Brasil profundamente marcada por
esse liberalismo, presente em todos os nossos movimentos políticos, como bem anotava o
autor? O que apontava o escritor para resolver a Justiça Social em um país que antes
mesmo da presença do colonizador já era refém do Judaísmo Internacional? Qual a
democracia proposta por Gustavo Barroso? É pela via dos sindicatos que a verdadeira
democracia é possível, é por meio de um pensamento humanitário e espiritual que a
‘Justiça Social não resolvida pela liberal democracia se torna uma realidade, O Estado
Corporativo Brasileiro é uma verdadeira democracia orgânica, pois resulta dos sufrágios dos
sindicatos, federações e corporações. A base do Estado reside na família. Das famílias
nasce o município. E os sindicatos se organizam nos municípios. A organização vem de
baixo para cima, nasce do próprio povo (Barroso 1936, 18).
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930; Revista nuestrAmérica; ISSN 0719-3092;
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Rejeitando a falsa democracia liberal, que abria espaço para pequenos grupos chegarem
ao poder agenciando seus próprios negócios (o judeu é a figura que interessa ao
integralista), prosseguia Barroso afirmando que só o integralismo traria a verdadeira
democracia, capaz de prover a cidadania, tornando possível a dignidade humana. O
cidadão brasileiro não seria escravo de um grupo de pessoas que prometeu a liberdade,
mas que paradoxalmente acirrou a luta entre as classes, levando a miséria e o caos, dentre
tantos outros fatores. Liberdade e igualdade para Gustavo Barroso significam farsa,
‘anarquia do número’, ideologia a serviço de grupos dominantes que em tese prometeram
melhores condições de vida quando de um Estado não intervencionista, mas só aumentou
a desigualdade e o domínio de pequenos grupos.
Contra a democracia propugnada pelos moldes liberais o integralista sugere a
democracia integral, baseada sobre a consideração do homem político, moral e
econômico (Barroso 1935, 103). Trata-se para Barroso de um Estado organicista que
viabiliza uma ‘democracia orgânica’, um ‘Estado Forte’ que tem por modelo o ‘Estado
totalitário, que não deve ser confundido com ditadura ou domínio de um tirano. Barroso
diversas vezes aludia aos regimes de Hitler e Mussolini, e em menor grau ao de Salazar, por
serem estes ‘regimes renovadores’ que tinham como fundamentação ideológica o espírito,
de combate às forças nefastas do ‘Capitalismo Internacional. Seguramente se defendo
contra a pecha de fascista, argumentava que as condições do Brasil eram diferentes do
fascismo de outros países, sobretudo da Itália, salientando a singularidade brasileira com
relação à tradição italiana dos césares, com a força representada pelo fascio. Com
relação à Alemanha que explorou como nenhuma nação a ‘identidade racial’, em seu
tortuoso processo de formação nacional, inspirando seus escritores historiadores e filósofos,
em busca das raízes (alma) nacionais, Barroso concordava com o apelo racial do nacional
socialismo de Hitler, mas considerava o Brasil um país ‘sem guerra entres as raças’.
É preciso entender as críticas de Barroso à liberal democracia para que possamos entender
sua defesa por um Estado forte. Um dos fatores mais importantes de sua admiração pelos
‘regimes fortes’ era serem tais regimes de ‘renovação espiritual’ que combatiam a matéria,
fundamento dos regimes propostos pela liberal democracia. A Moral, elemento
indispensável da filosofia integralista regeneraria os problemas brasileiros na implantação
de um novo pensar, de uma nova forma de ver e de sentir, no caso, o ‘Regime Integral. A
caótica conjuntura mundial provocada pelo liberalismo somente seria resolvida com um
Chefe político, como nos modelos italiano e alemão,
Sem o apelo a tradição, é impossível reformar a moral dos povos. A tradição é o
ensinamento, a experiência, a solidariedade, o exemplo. O Estado Total, que
fusiona Estado e Sociedade, de Carlos Schmidtt, que o propunha, em 1931, a
Alemanha ainda a espera do triunfo hitlerista, estende no passado suas raízes
como uma árvore as aprofunda no ubertoso seio da terra. Os antigos chamavam
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930; Revista nuestrAmérica; ISSN 0719-3092;
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á tradição “culto dos antepassados”. Esse culto é o único capaz de manter
coesas as sociedades. Por isso, o judeu o conserva ciosamente em si, mas procura
destruí-lo nos outros. Quando a lição tiver aproveitado aos povos cristãos e eles se
apoiarem nesse culto, o judaísmo perderá noventa por cento de sua força
destruidora. Será o começo do seu fim (Barroso 1934, 164).
Concluía Barroso que na Alemanha liquefeita pelo liberalismo aliado a saturação judaica,
o movimento de Hitler teve de buscar um apoio ainda mais profundo do que a simples
tradição jurídica e política. E este foi à raça(Barroso 1937, 164-5). Manietado pelo judeu, as
ideias liberais representavam o mal, significava individualismo, um dos elementos
marcantes do espírito capitalista que ‘passava por cima’ de qualquer coisa, o que
interessava era a sede pelo lucro. Somente um Estado forte’, com ‘pontos de contatos’
com o fascismo e não debaixo de uma ditadura arbitrária, sob a ideia de totalidade
poderia deter a nação brasileira dos inúmeros prejuízos provocados pelo liberalismo. Este
achatamento do modelo de Estado brasileiro, baseado na Carta Del Lavoro era o modelo
de Estado brasileiro defendido por Barroso, onde o trabalhador confundia-se com as
necessidades do país, conquistando ‘automaticamente’ sua propriedade privada, tendo
dignidade na vida e alcançado sua liberdade na ‘verdadeira democracia. Contra os
prejuízos do liberalismo (“o livre arbítrio dissociador já apregoado na Mischna do rabino
akiba”), contra o determinismo defendido pelo comunismo, contra o governo da
fraseologia liberal acompanhado pelo internacionalismo traiçoeiro, só um Estado forte
para conter a triste situação política do Brasil dos anos 1930. Diante desse cenário é que
Barroso defende o Regime Integral, que conforme suas palavras trata-se de um
movimento cristão. O integralismo tem suas bases filosóficas e morais na doutrina de NSJC,
nos evangelhos(Barroso 1937, 31), este era “o maior movimento brasileiro após a abolição
da escravidão e da Proclamação da República”, todos os esforços faziam-se necessários
para conter a democracia liberal que por falta de uma doutrina de conjunto um caos
político e social injetou nas almas o desdém, o ceticismo e a amargura(Barroso 1934, 22).
Barroso é um escritor cristão, influenciado pela ideologia católica, que reabilitou a
tradicional política de Aristóteles, somado a particularidades do integralismo, como por
exemplo, a ideia de que ‘Deus dirige os destinos dos Povos’. Vemos que seu pensamento
baseia-se no pensamento católico, contrário aos regimes de esquerda, considerado
‘amoral’. Não menos importante é o combate à matéria, razão para a crítica aos
movimentos céticos e anticristãos, como o comunismo (Motta 2002). Dizia Barroso que a
filosofia de Marx era a anti-igreja!
É interessante notar que todo o pensamento do escritor se volta contra o judeu, este é o
responsável pelo surgimento da liberal democracia, razão de seus duros ataques à figura
deste num período de ‘indefinição política’ (Chaui 1978; Gomes 2005), quando as elites
tradicionais brasileiras temiam perder seus espaços no novo quadro político de incertezas.
── Cícero João da Costa Filho; Estado Forte em combate ao Liberalismo: o projeto antissemita integralista de
Gustavo Barroso para o Brasil dos anos 1930; Revista nuestrAmérica; ISSN 0719-3092;
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Economicamente o Estado brasileiro viu a urgência de um diálogo entre cafeicultores
arruinados devido à crise de 1929 e de setores médios compostos por profissionais liberais,
no momento em que chegava ao Brasil a ideologia comunista e anarquista, demonstrando
o perigo desta real alternativa política. Essa conjuntura deu sentido ao movimento que
trouxe a cena política o Integralismo, tendo como seu principal adversário o liberalismo.
Grosso modo, este foi o cenário que colocou no poder o estrategista Vargas que de forma
magistral dialogou com todos os setores, antes de instaurar a ditadura no país. O temor
pelas mudanças, pelo ‘moderno’, pondo em risco a situação privilegiada de homens bem
estabelecidos, lógica essa presente no cenário de alguns países europeus, como por
exemplo, França, Rússia e Alemanha, explica o posicionamento de uma figura como
Barroso, rechaçando regimes democráticos e saindo em defesa de um Estado forte.
Gustavo Barroso reabilita toda a discussão em torno de um ‘pensamento autoritário’ para
formação de um novo Estado brasileiro, formado por escritores e futuros políticos, como
Oliveira Viana, Alberto Torres, Azevedo Amaral, Francisco Campos, etc., figuras públicas,
que comporiam os ministérios do governo varguista (Lamounier 1985). Para além de uma
interpretação maniqueísta que reduz Barroso a um simples divulgador do fascismo
genérico’ (Athaides 2014), algo que não avança na investigação histórica, para o escritor a
democracia só viria dentro de um modelo orgânico e funcional, eliminando qualquer
sobressalto das partes, Para organizar, portanto, um Estado, é necessário conhecer as
unidades que o compõem e os problemas dessa sociedade, isto é, primeiro o
conhecimento das partes e, depois, o conhecimento do todo. Demais, para que exista o
verdadeiro estado, é imprescindível que os homens estejam unidos e não divididos
(Barroso 1934, 9). O modelo de Estado seria preenchido por uma sociedade ‘obediente’ ao
Chefe político, a figura que sabia dos problemas do país e como solucioná-los. Embora
leigo, sem capacidade para participar das decisões políticas, a participação do povo era
de fundamental importância por se identificar com a nação. Barroso e outros integralistas
são intelectuais que apostam na eficiência do modelo político criado por um exército de
intelectuais, capazes de apontarem os rumos para criação de um Estado forte’, em sua
ótica de melhores condições para o povo, facultando o advento da verdadeira
democracia. Deve-se reconhecer que o integralista criticou o marxismo antes de tudo por
pensar que a filosofia materialista de Marx ia de encontro ao modelo de sociedade
‘integral’, onde cada classe ocupava seu espaço no complexo organismo social.
Somente uma sociedade hierarquizada com a eficiência política das corporações (esta
formaria as Câmaras Municipais, Governadores e Câmara Suprema), seria possível criar a
nação brasileira. Ao invés de partidos, as corporações ditariam a cena política do país
O Estado Corporativo realizará a verdadeira união de todos os brasileiros, pois
estes deixarão de se agrupar, no domínio de suas atividades públicas, de acordo
com os critérios partidários ou regionais que tem dividido a nação, passando a se
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organizar pelo critério dos interesses espirituais, morais e materiais da profissão
(Barroso 1938, 59)
Para respaldar o regime corporativo proposto pelo integralismo
O estado integralista reconhece Deus como liberdade de consciência religiosa,
fomenta, dirige e disciplina a cultura em todas as suas manifestações; defende as
tradições e a família; mantém o direito de propriedade, obrigando-o a deveres
que o liberalismo esqueceu e põe os interesses da pátria sempre acima de
quaisquer injunções dos interesses de grupos ou de indivíduos” (Barroso 1937, 59).
Como se ver, o projeto de Brasil pensado por Barroso passava pela eliminação do
liberalismo, apenas o ‘movimento integral-espiritual’ seria capaz de regenerar o país,
realizando uma volta a suas tradições em um país que não enfrentou guerra de raças,
somada ao combate a todas as manifestações judaicas. Não sem razão afirmava que “o
integralismo é uma ação social, um movimento de Renovação Nacional em todos os
pontos e em todos os sentidos”.
Não é gratuito que os anos de 1920 seja os anos de criação da Questão Judaica (Chor,
1999), momento que viu a gestação de mais um projeto nacional brasileiro, um complexo
processo político, econômico e discursivo que acionou a temática racial, considerando a
figura do judeu como o principal elemento ameaçador da formação do novo Brasil.
Ângela de Castro Gomes analisa de forma minuciosa a ‘democracia autoritária’
propugnada pela geração de Barroso
(...) a nova democracia brasileira procura também, por conseguinte, preservar a
liberdade e respeitar o indivíduo, ao contrário de um regime totalitário que,
sobrepondo-se ao homem, reduz tudo ao Estado. Porém, já não se trata do reino
do livre-arbítrio individual que ignora o interesse social e minimiza o papel do
Estado, como ocorre no liberalismo. A democracia brasileira propõe a
prevalência do princípio da autoridade não como obstáculo à liberdade
individual, mas como o único meio legítimo de sua realização. Deve haver uma
sincronia perfeita entre os ideais da coletividade nacional e o espaço de
movimentação individual. O conceito de liberdade subsiste associado inclusive à
dimensão dos direitos civis individuais, mas apenas como uma categoria capaz
de integrar os ideais de realização do interesse coletivo, sob os auspícios de uma
autoridade ordenadora da sociedade. Este ideal de liberdade é, portanto,
incompatível com a proposta de igualdade/equidade política liberal, isto é, com
a sua formulação de direitos políticos/representação (Gomes 1982, 131).
Contra a possibilidade de um regime político propiciador da ‘anarquia do número’ apenas
possível por vias liberais, é necessário um regime que torne realidade os ares democráticos,
sob o ‘princípio de autoridade’, tendo como base as corporações. Toda a visão filosófica e
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conceitual da lógica liberal é descartada, aparece à ‘Totalidade, surge à lógica
humanista’ e ‘integral’ solidarizada pelo povo brasileiro, revestida da espiritualidade e
força do Chefe de Estado. Não se fala mais em liberdade e igualdade, pois tais conceitos
escravizaram o mundo, mas sim em democracia orgânica’, capaz de resolver os
problemas mais básicos da sociedade, como por exemplo, o da Justiça Social. É preciso
destruir o liberalismo para enfrentar os novos tempos
A mocidade contemporânea do avião não se pode mais enquadrar nos
carcomidos partidos do Liberalismo, que data das anquinhas, ou formar nas fileiras
comunistas, que vem da época das sobrecasacas e dos lenços de rapé. Seus
imperativos categóricos a levam as milícias fascistas, nazistas, integralistas para o
revigoramento das pátrias alquebradas. Os cérebros moços recusam-se a aceitar
teorias de há um século. E quando alguns fósseis liberais gabam as excelências da
falecida constituição de 1891 não avaliam como a rapaziada acha graça
(Barroso 1934, 59).
Não espaço para análise no Estado pensado por Barroso, pois se trata de um Estado
ordenado por NSJC. O ‘filosofismo’ dos iluministas com suas ideais liberais levou
inevitavelmente a sociedade ao marxismo, uma sociedade marcada pelo individualismo,
pelo pragmatismo e racionalismo, que como afirmava estava mais preocupado com o
‘quantitativo’ do que com o ‘qualitativo’. Era urgente pensar um modelo de sociedade
que apontasse os remédios para a solução do pauperismo, causado pela mecanização da
era industrial. Por isso, os aplausos de Barroso aos papas, autores de encíclicas com suas
mensagens de assistencialismo e de moralidade, focado nos valores familiares, no
sentimento, na alteridade e no humanismo cristão.
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